Ao lembrar daquele tempo
a saudade me domina.
Só vejo águas barrentas,
antes corriam cristalinas.
Me lembro e tenho saudade
-Sei que não vejo nunca mais -
de rever as lindas florestas
e os lindos cafezais
Quando chegava a primavera,
era tão lindo de se ver.
Todas as árvores floridas
As lindas flores roxas e amarelas do Ipê
Do jeito que vai indo, não sei ...
Não se aguentava mais.
Só se cheirava veneno
Coisas desnaturais
Só por causa do veneno
Matando vidas humanas
Matando aves
Matando os peixes dos rios
Quantas coisas que existiram
não existem mais
Vejam bem meus leitores
Se isto não dá dó
Agora fico ouvindo
Quando chega a madrugada
E não escuto mais o cantar dos galos
Nem o gorgeio da passarada
Cadê os beija-flor
Com seus modos tão brejeiros?
Todos os dias eles cheiravam
as flores dos terreiros
Eles morreram
porque cheraram veneno
Onde foram os curiangos
que pelas noites enluaradas cantavam
‘‘Amanhã eu vou’’, ‘‘Amanhã eu vou’’?
Mas nunca eles chegavam
Cadê os carás carás?
Parecia que adivinhavam
quando vinha a estiagem.
Cantavam ‘‘água, água, água’’.
Eles também se foram
com as águas contaminadas
Com as fortes chuvas caindo
nas terras mecanizadas
É só água que vai correndo
nos leitos das estradas.
Com os fortes temporais,
todos ficam preocupados
A erosão tapando os rios
que cortam o chão mecanizado
Ainda agora, bem me lembro
daquela fartura
Tinha leite e o queijo
arroz, milho e feijão
No pasto tinha o gado
os porcos no chiqueiro
no terreiro a galinhada
Oi, tempinho bom
Cadê as vacas de leite?
Cadê os bois carreiros
Só porque comprou trator
vendeu tudo para os açougueiros
Onde se foram os vizinhos?
Despedidos, foram embora
Só ficaram as casas fechadas
Quando deles se precisava
não mediam esforços.
Foram pro Paraguai
Amazonas, Rondônia e Mato Grosso

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