FRATERNIDADE TERRA DOS DESPROVIDOS Distrito de Santa Margarida, no município de Bela Vista do Paraíso, reúne população de famílias desamparadas de bóias-frias Mário CesarMário CesarVIDA AMARGAMaria José Barbosa, 30 anos, é mãe de seis filhos e está no Rosa Luppi fugindo de um aluguel de R$ 50,00 que pagava em Santa Margarida. Ela lembra com tristeza as temporadas que passava em uma fazenda de café do Triângulo Mineiro, onde dormia em barracão com as crianças. ‘‘É muito sofrimento. Para lá não volto mais’’, diz. Lúcio Flávio Moura De Londrina Efeito colateral da modernização agrícola e da concentração fundiária, Santa Margarida é quase uma ex-comunidade rural, que hoje se estende em forma de periferia ao longo da PR-090, em Bela Vista do Paraíso (40 km ao norte de Londrina). O distrito é protagonista na história de comunidades do Norte do Estado que esbarram no desemprego, analfabetismo e na desestruturação familiar para vencer a miséria coletiva, herdada e repassada por gerações de trabalhadores rurais. Os bóias-frias, que parece mais condição natural do que profissão em Santa Margarida, contam abaixo suas histórias de sofrimento, de desesperança e da procura diária pela sobrevivência relatadas com mais conformismo do que com revolta. O cenário: o Rosa Luppi, um misto de conjunto habitacional e favela, entre o distrito e a sede. São 220 casas de alvenarias, construídas em regime de mutirão e mais 50 barracos, muitos de lona, quase todos edificados em uma área de risco, que abrigava o antigo lixão da cidade. Bela Vista, o município, não cresceu, ao contrário do que dizem comentários ufanistas em cada praça. Perímetro urbano expandido e edifícios altos no horizonte, argumentos dos desenvolvimentistas, são detalhes na história do vertiginoso despovoamento da zona rural, processo consolidado nos anos 70. Com três grandes fazendas ocupando boa parte dos 248 quilômetros quadrados e da mão-de-obra do município na época áurea da cafeicultura, Bela Vista já teve o dobro de habitantes que tem hoje (que pelas estimativas oficiais, mal chega aos 15 mil). Na região, restam poucas lavouras de café e sobram desempregados – os ‘‘sem-função’’ nas plantações de soja, onde colônias foram transformadas em ruínas e o trabalho duro foi substituído por máquinas. Quem fincou raízes na terra roxa, esquecendo a Grande São Paulo, o Mato Grosso, Rondônia e a região metropolitana de Curitiba – o destino de tantos migrantes no dia a dia da decadência econômica –, pode ter feito uma aposta na miséria e na imobilidade social, conforme mostram estatísticas que eles nem sabem que existem. Dados do Mapa da Fome no Paraná, um trabalho em conjunto da Secretaria Estadual da Criança e do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes), realizado em 1998, apontam que cerca de 45% dos chefes de família do município – a maioria em Santa Margarida – ganham até um salário mínimo. A atual administração municipal tem um cadastro de 500 famílias que se inscreveram para receber cesta básica (que equivale a uma compra de cerca de R$ 20,00) e se dizem na miséria absoluta. Por enquanto, apenas 200 delas – os casos críticos desta lista da exclusão –, recebem o benefício, que só é válido por 10 meses consecutivos. A suspensão da distribuição da cesta no 10º mês, que ocorre para consagrar a rotatividade do programa, quase sempre provoca colapso nas improvisadas dispensas do Rosa Luppi ou das centenas de casas de madeira em péssima condição que compõe a área urbanizada do distrito. Dos 547 estudantes de 1ª a 4ª séries das duas escolas de ensino fundamental do distrito, 5,21% não conseguiram terminar o ano letivo, outros 12,6% não conseguiram avançar a série. A secretária municipal de Educação Maria Laudicéia dos Santos, calcula que em metade destes casos, a criança é prejudicada pela migração forçada dos pais, que entre março e outubro se mudam para as regiões cafeeiras de Minas Gerais e São Paulo em busca de ocupação. O fenômeno, que já é antigo, também está perdendo força com os baixos salários e as péssimas condições de alojamento oferecidas pelos patrões provisórios. É cada vez maior o número de bóias-frias que deixaram de contar com a renda gerada pelo êxodo semestral, seja por medo – segundo eles os patrões chegam a pagar apenas um terço do salário combinado –, por cansaço (homens e mulheres envelhecidos por anos de trabalho pesado, má alimentação e saúde comprometida), ou seja por desilusão e comodismo. ‘‘Como não tem emprego ou um meio de ganhar a vida, eles acham que o poder público tem que bancar todas as suas despesas’’, lembra Terezinha. ‘‘Botijões de gás, conta de água, conta de energia elétrica e passagens rodoviárias são pedidos muito comuns aqui na prefeitura’’, completa. No entanto, quase todos os bóias-frias entrevistados pela Folha disseram que o maior problema enfrentado nos últimos anos para manter a vida de nômade é resultado do crescimento do desemprego rural crônico, fenômeno que têm se alastrado por outras partes do País. O fantasma definitivo do crescimento do número de bóias-frias nas regiões cafeeiras de São Paulo e de Minas Gerais e o consequente aumento nas disputa por vagas de trabalho na lavoura no antigo seara já é uma realidade e até agora os 5,4 mil moradores de Santa Margarida não sabem como enfrentá-lo.