Londrina - São 12h45 de uma quarta-feira de chuva. Nas salas do Centro de Educação Infantil (CEI) Menino Deus, no Conjunto João Turquino, bairro de comunidades carentes da zona oeste de Londrina, os pequeninos estão na hora da soneca. É uma pena que eles não possam ouvir o que a tia Tereza tem a contar. A vida dela é uma grande lição.
Criada na roça, Tereza Isaura Caetano, de 54 anos, foi doméstica, lavadeira, cuidadora de idosos e zeladora semianalfabeta. Concluiu o Ensino Fundamental com 41 anos. Sofreu a maior das dores ao ter o filho assassinado pelo amigo. Hoje, é educadora infantil pós-graduada e não reclama da vida. Vive. É a história dela que a FOLHA conta a seguir.

RENASCIMENTO
"Eu sempre tive o sonho de ser professora", diz Tereza, que aprendeu a ler e a escrever aos 10 anos de idade. Já quase quarentona, retomou os estudos na Educação de Jovens e Adultos (EJA), em que concluiu o conteúdo do Ensino Fundamental em um ano. Quando já cursava a segunda fase, equivalente ao Ensino Médio, soube da vaga de zeladora na creche. "Quando minha filha me falou, nem acreditei. Imagina, eu trabalhando numa escola?" O emprego era seu.
Incentivada pelos novos colegas do CEI, Tereza concluiu o EJA e decidiu dar um passo a mais. Sabia que só dependeria dela. Prestou vestibular a distância para Pedagogia em uma faculdade privada do Rio Grande do Sul, a Universidade Luterana do Brasil (Ulbra). Estudou por conta, com auxílio da filha, que não tem curso superior. "Fiz a prova pedindo a Deus que me ajudasse", recorda.
A aprovação repercutiu de imediato na creche. Tereza foi promovida a assistente de educadora infantil, conciliando o trabalho com os três anos de graduação. Formada pedagoga, não se deu por satisfeita. Fez uma pós em Educação Infantil na UniFil. Mais uma vez, bancando tudo do próprio bolso. "Eu não sou de desistir das coisas. Quando você tem um sonho, um objetivo, consegue incluir no orçamento. Eu tinha minhas despesas, mas nunca deixei faltar para os meus estudos", afirma. A promoção a educadora na creche foi consequência. "Aqui na creche eu renasci. Tive o apoio dos colegas e da direção e acho que soube aproveitar as oportunidades", avalia.

BICHO
A lição de Tereza poderia terminar por aqui. Mas ela tem muito a contar. E é bom ouvi-la. "Nasci em Jandaia do Sul (Região Metropolitana de Maringá), mas me criei na roça, em Pirapó, distrito de Apucarana. Sou a 12ª de 14 filhos, acho que oito estão vivos. Meus pais se divorciaram quando eu tinha 4 anos. Minha mãe saiu de casa, eu nunca mais a vi, e fui morar com meu pai."
O pai de Tereza morreria dois anos depois, atropelado. "Me lembro da minha irmã chegando em casa chorando que o pai tinha sido pego por um carro. Como eu era muito pequena, um dos meus irmãos mais velhos me levou para morar com o filho dele, meu sobrinho que já era casado, em Iguatemi (interior do Mato Grosso Sul)."
Começava ali uma vida de cão. Tereza era a doméstica da casa. Diz que aguentava calada os insultos da família do sobrinho. "Eles me chamavam de bicho, diziam que eu não prestava pra nada. Por isso que eu sempre andava muito de cabeça baixa, sem olhar para as pessoas. Era muito acanhada. Mesmo quando vim pra creche cheguei de cabeça baixa, com muita vergonha", relata. Tereza ganhou a "alforria" aos 18 anos, ao se casar com um autônomo em Iguatemi, mas acabou por trocar uma vida submissa por outra. "Ele não me deixava trabalhar fora, então eu lavava roupa para as pessoas em casa", conta.

REENCONTRO
A absoluta falta de contato de Tereza com os irmãos e a mãe, que ela nem sabia se estava viva ou morta, intrigava seus três filhos. E a ela também. O reencontro foi o início da guinada na vida da professora. Foi por meio dos patrões do filho caçula, donos de um cartório eleitoral em Iguatemi (MS), que ela descobriu que uma das irmãs morava em Cambé. Era 1997. Um cartório da cidade vizinha a Londrina localizou o paradeiro da tia. Parece novela. "Um dia eu estou em casa e me liga uma mulher dizendo que era minha irmã. Eu achei que era trote, nem quis muita conversa. Mas ela falou quem era, disse que estava morando em Cambé e que minha mãe estava viva e morava com ela. Nossa, eu nem sei o que senti", recorda Tereza.
Depois de muito custo, ela conseguiu vir para cá para o reencontro esperado. "Minha mãe já estava bem doentinha, mas minha irmã tinha chamado os outros irmãos que moravam aqui e foi aquela festa. Foi muito legal", conta. Tempos depois, Tereza resolveu se mudar para Cambé com o marido e os três filhos. Trabalhou como cuidadora na casa de uma senhora que morava com a filha. Elas é que lhe falaram que Tereza poderia retomar os estudos no EJA.

GOLPE
As coisas estavam mudando para Tereza, mas dentro de casa o convívio com o marido já era insuportável. "Ele não chegou a me bater, mas me ameaçava e várias vezes tive a faca no pescoço." Com o apoio dos filhos, saiu de casa e foi morar no Maracanã, bairro colado ao João Turquino (zona oeste), onde vive até hoje com um companheiro. Tereza já era educadora infantil na creche quando teve que suportar o mais duro dos golpes que levou. Em 2005, o filho caçula foi assassinado pelo próprio amigo, que desconfiou de um flerte entre o rapaz e a ex-namorada. Foi então que ela teve que aprender na marra os valores da educação. Dois filhos do homicida estavam matriculados na creche.
"Teve uma vez que uma criança estava chorando no banheiro, eu fui ver o que era e quando vi que era um dos filhos dele, travei. Ajudei, mas virei o rosto e fui saindo quando parei na porta e pedi a Deus que me ajudasse a ter forças para fazer o meu trabalho e saber separar as coisas. Os filhos dele não têm culpa do que o pai fez com meu filho", reflete. Apesar dos pesares, Tereza Isaura faz um balanço positivo de sua vida. "Eu me sinto vencedora porque nunca desisti dos meus objetivos, dos meus sonhos. Acredito que quando a gente quer alguma coisa, basta ter força de vontade que consegue."

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