"Agora vamos sortear o prêmio especial de R$ 1 mil". A fala do locutor que "canta" as pedras do bingo deixa as mais de 100 pessoas presentes no salão de aproximadamente 600 m² em polvorosa. Porém, depois vem a explicação: os R$ 1 mil não são pagos de uma só vez, mas divididos em sorteios de linha, "jogo da velha" e cartela cheia. Mesmo assim, todos querem ganhar o "super prêmio" em dinheiro oferecido no estabelecimento localizado na Avenida Celso Garcia Cid, área central. A exemplo desse estabelecimento, muitos outros funcionam em Londrina oferecendo uma atividade - exploração de bingos - proibida por lei.
A entrada é discreta, sem ninguém na portaria para barrar a entrada. Uma porta estreita conduz para o salão, onde os jogadores ficam. As mesas são simples e compridas e a maioria do público é formada por pessoas da terceira idade, notadamente mulheres _ cerca de 70%. "A gente só tem essa diversão na vida. Não existe nada que alguém da nossa idade possa fazer", justifica uma das mulheres ouvidas pela reportagem.
No espaço, quase a totalidade dos jogadores aposta várias cartelas ao mesmo tempo. Não existem as brincadeiras usuais a cada pedra sorteada, como "dois patinhos na lagoa", quando sai o número 22. Os números são cantados rapidamente e os olhos treinados dos jogadores permitem que eles preencham com uma velocidade impressionante, mesmo cuidando de quatro ou cinco cartelas ao mesmo tempo.
Diferentemente dos bingos que funcionaram durante a década de 90 e no início dos anos 2000, não há a oferta de cafés coloniais e outras iguarias durante os jogos. Em vez disso, duas garrafas térmicas oferecem café ou chá para os frequentadores. Os recursos eletrônicos utilizados são o equipamento de som e uma câmera para ampliar o tamanho das pedras, para que todos possam acompanhar o sorteio.
Nas mesas poucas pessoas pedem bebidas para se hidratar durante a partida e os sintomas de ansiedade eram aparentes entre os presentes. São pessoas de várias regiões da cidade. Muitas aproveitam que não precisam pagar passagens de ônibus e fazem da ida ao bingo um passeio diário.
A reportagem apurou que muitos estabelecimentos cobram R$ 1,50 por cartela simples e R$ 3 o conjunto com três. Os prêmios variam de R$ 40 a R$ 90 por rodada, com prêmios especiais de até R$ 600. Entre as frequentadoras existem pessoas que desconfiam do sorteio. "Eu acho que essa pessoa que ganhou é da casa, pois ela ganhou várias vezes seguidas", disse desconfiada uma das apostadoras. Outra interpela e revelou que antes uma outra pessoa ganhou seguidamente. "Era uma mulher que me falaram que era parente do locutor", declarou.
A FOLHA passou por outros estabelecimentos onde é o bingo é jogado: na Rua Waldomiro Fernandes, Jardim Jamaica (zona oeste); na Rua Mossoró (região central); na Avenida Rio Branco (zona norte) e na Rua Araguaia (Vila Nova). Em alguns desses locais o funcionamento é diário e em outros, o jogo é realizado nos fins de semana ou três vezes por semana.
Geralmente, além do locutor que canta as pedras, existem auxiliares, que recolhem o dinheiro das apostas. Elas circulam com pochetes na cintura e recolhem o valor equivalente de cada aposta realizada.
O delegado do Grupo de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), Alan Henrique Flore, afirmou que mesmo que não seja realizado com os aparatos eletrônicos, os bingos são considerados jogos de azar e estão enquadrados como contravenção penal. "Caso as pessoas constatem essa prática, elas devem denunciar", alertou.

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