Terapia de plantas pode revolucionar saúde básica em 97
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de dezembro de 1996
Célia Baroni 
O sistema de saúde do Paraná poderá passar por uma revolução a partir de 1997. Na semana que vem, uma comissão formada por profissionais das áreas de Farmácia e Agronomia das universidades Estadual de Maringá (UEM) e Federal do Paraná (UFPR) e iniciativa privada apresenta à Secretaria Estadual de Saúde o Projeto Estadual de Implantação da Fitoterapia na rede pública de saúde.
Coordenado pelo Centro de Medicamentos do Paraná (Cemepar), o projeto conta com a consultoria do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). O estudo pretende demonstrar, na prática, que a fitoterapia é uma alternativa eficaz e viável economicamente na garantia da qualidade de vida da população.
Os medicamentos fitoterápicos, garante o consultor do projeto, o engenheiro agrônomo Paulo Guilherme Ribeiro, do Iapar, podem chegar à população a preços até 60% mais baixos que os oferecidos pelas empresas farmacêuticas. Isso sem prejuízo da eficácia terapêutica, ele ressalta.
Pesquisador do Iapar e especialista em plantas medicinais, Paulo Ribeiro atuou como um dos consultores do projeto. E diz que inúmeros trabalhos e pesquisas científicas desenvolvidas em todo o País comprovam a eficácia de várias plantas medicinais.
Os resultados dos trabalhos, no entanto, ficam restritos aos pesquisadores e não chegam aos médicos e ao conhecimento da população. O Ministério da Saúde tem cerca de 10 monografias sobre plantas medicinais, com estudos tóxicos, farmacológicos e clínicos de sua eficácia. Todos, porém, engavetados. Estes trabalhos dão a retaguarda necessária para os profissionais de saúde utilizarem a fitoterapia no dia-a-dia do seu trabalho, enfatiza Paulo Guilherme Ribeiro. Sem um estudo reconhecido pelo Ministério da Saúde, nenhum médico se sente tranquilo para prescrever a utilização de produto fitoterápico.
A falta de informação, acredita Ribeiro, é proposital e tem como único objetivo manter o modelo de medicina sintomático - quando são tratados os sintomas da doença, não a causa -, que interessaria à indústria farmacêutica multinacional. O sistema de saúde adotado no País foi estabelecido no modelo da fome e da miséria, avalia o pesquisador do Iapar. Esse sistema é ilusório e manipulado pelos interesses econômicos, sem nenhum compromisso com a qualidade de vida da população.
No Brasil, diz Paulo Ribeiro, vende-se a marca do remédio e não sua ação curativa. Os interesses econômicos, ele analisa, dificultam a implantação da fitoterapia por ela representar uma forte concorrente aos medicamentos químicos. O Brasil já é o quarto mercado do mundo em volume de vendas de produtos farmacêuticos - o que significa uma renda anual de cerca de US$ 8 bilhões.
Se o projeto for aprovado pela Secretaria Estadual de Saúde, quatro plantas medicinais, devidamente preparadas em forma de pomadas e cápsulas pelo Cemepar, vão integrar o programa estadual Farmácia Básica, que envia medicamentos para a rede municipal de todo o Estado. A calêndula será utilizada em forma de pomada e indicada para uso tópico como cicatrizante e antisséptico. A espinheira santa (em drágeas) tem indicação no tratamento de gastrites e úlceras. A macela, também em drágeas, com indicação como antiespasmódico e antinflamatório. E o xarope de maracujá, como calmante.
Um trabalho similar, implantado em Fortaleza, resultou em uma melhora significativa na qualidade da saúde da população e na queda de 16% da venda de medicamentos nas farmácias. O projeto de fitoterapia foi implantado naquela cidade pela Universidade Federal do Ceará.


