Estamos no Departamento (estado) de Canindeyú, no Paraguai, na região de Salto del Guairá, fronteira com o Brasil. No rádio do táxi que leva os jornalistas da FOLHA até a fazenda que tem o nome de Londrina estampado na placa da porteira principal, um deputado paraguaio fala sobre a situação dos campesinos que estão acampados em frente à propriedade. O político promete uma visita e ajuda para o grupo, que reinvidica metade daquela área para assentamento. Não é por acaso que a situação dessas terras chegou ao Congresso do país, na capital Assunção. O nosso taxista diz que o clima já está tenso por ali há alguns dias.
No acampamento, encontramos os campesinos reunidos ao redor de um rádio, escutando as palavras do político. Depois de uma breve conversa, eles aceitam conceder entrevista aos ''periodistas'' paranaenses. Tecem acusações aos brasileiros que são proprietários da área, dizem que a extensão total da fazenda chega a 70 mil hectares e queixam-se da precária situação do acampamento, que está repleto de crianças.
As grandes bandeiras paraguaias hasteadas em frente à porteira - e também outras menores empunhadas por alguns membros do movimento - ressaltam o sentimento nacionalista dos campesinos. Eles negam ter algum rancor em relação aos brasileiros que são donos de terras no país.
A situação da ''ganadera'' visitada pela FOLHA é um exemplo do que acontece em todo o Paraguai. Desde a posse, em agosto, do presidente Fernando Lugo, que teve como uma das promessas de campanha rever o tratado de Itaipu, as invasões de terras de brasileiros se tornaram mais frequentes. Há notícias de trocas de tiros entre invasores e seguranças contratados pelos donos de terras.
''Nosso desejo é ocupar essa área, trabalhar, plantar. Não queremos virar vendedores ambulantes como tem acontecido com muitos por aqui. Não temos nada contra brasileiros. Inclusive, há gente do Brasil conosco. Também os consideramos sem-terras. Estamos brigando na Justiça, mas queremos que o proprietário venha conversar com a gente. Se ele nos der metade das terras, acabam os problemas'', propõe Juan Vernal, líder do movimento campesino. Ele também diz que a propriedade é grande demais e tem partes improdutivas.
De acordo com Marcelo Castro Cunha, um dos diretores da ''Ganadera CuÀa Porã'' - que já teve o nome de Londrina em homenagem à cidade do Norte do Paraná, onde mora a família de Castro Cunha -, o tamanho total da fazenda é de 11 mil hectares, todos produtivos.
''Medições de órgãos oficiais do Paraguai comprovam isso'', ressalta. Para o empresário, ''o movimento campesino está extrapolando as coisas''. ''Estamos nos sentindo intimidados. Eles agridem, verbalmente, os nossos funcionários'', queixa-se.
Porém, as críticas maiores ficam para o governo do país. ''Na verdade, Lugo ainda não tomou uma definição exata para o seu governo. Ele se elegeu tendo como pilar eleitoral diminuir a pobreza, rever o contrato de Itaipu e fazer a reforma agrária. Acontece que não se diminui o número de pobres por decreto; o contrato de Itaipu é claro e dificilmente será revisto; e a reforma agrária não se faz da noite para o dia. Para nós, brasileiros que já estamos há muitos anos produzindo no Paraguai, fica a intimidação. Sentimos falta do apoio governamental dos dois países'', finalizou Castro Cunha.

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