Bóia-fria de 36 anos, casada, evangélica e analfabeta ficou apavorada quando caso foi parar na polícia: ‘Ele é um doutor’
Ilustração: BetoE.M.L., casada, três filhos, tem 36 anos e o rosto cansado, marcado pelo sol e privações. Evangélica, bóia-fria, analfabeta. O corpo magro é recoberto pelas roupas disformes e humildes. E.M.L., aliás, é a humildade em pessoa. Tímida, mantém os olhos baixos, mal olhando para a repórter. Fala baixinho, escolhendo as palavras, como se tivesse vergonha de conversar.
E.M.L. é uma vítima de assédio sexual. O assediador, um médico que atendia no posto de saúde do distrito onde mora. Apesar de ter dado queixa contra ele, incentivada pelas atendentes do posto, E.M.L. voltou atrás quando o caso foi parar na polícia. ‘‘Eu tenho medo de ele me matar’’, revela.
E.M.L. ainda não entende como tudo aconteceu. No começo deste ano, ela foi ao posto de saúde pedir um remédio para dormir porque andava nervosa e cheia de problemas familiares. Como é lógico, teve que se consultar. E acabou surpreendida pela ação do médico. ‘‘Ele trancou a porta e me mandou sentar. Quando me sentei, ele já pôs a mão na minha perna e foi subindo até as coxas. Eu segurei a mão dele e falei que não era destas coisas, que era casada e crente’’, explica.
Segundo ela, o fato de citar a religião fez o médico começar a falar sobre padres e pastores. ‘‘Ele disse que eram todos homens, como ele, e que também sentiam desejo’’, conta. E.M.L. conta que, a partir daí, a conversa do médico passou para vários tópicos, inclusive de como as cadelas tem vários parceiros sexuais durante o cio. ‘‘Ele também me mostrou uns livros onde tinha homens e mulheres pelados’’, diz.
Cada vez mais nervosa, a bóia-fria tentou retomar a conversa para seu problema de insônia. ‘‘Ele me mandou deitar na maca dizendo que ele ia ser meu calmante’’, lembra. Segundo ela, foi a gota d’água. ‘‘Eu falei que ia embora, que era para destrancar a porta e que eu não queria remédio nenhum. Aí ele falou assim: se o que quero dar você não quer, vou receitar um calmante’’, conta.
E.M.L. diz que saiu do consultório totalmente envergonhada. Deu a receita para a enfermeira, mas não falou nada. ‘‘Ele ainda chegou por trás de mim, na hora que eu estava com a enfermeira, e mandou ela marcar uma nova consulta para mim. Mas eu falei que não precisava’’, diz. Só foi comentar o caso depois, com uma vizinha que foi quem fez a denúncia no posto. ‘‘As atendentes vieram me perguntar o que tinha acontecido e eu contei. Sou besta, boba, analfabeta, mas ele estava com sem-vergonhice’’, diz.
O caso foi registrado na Delegacia da Mulher, em Londrina. Mas E.M.L. não quis levar a denúncia até o fim. ‘‘A gente é pobre e eu tenho medo de mexer com estas coisas. No fim, pode sobrar pra gente. Ele é um doutor’’, conclui. (T.E)

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