‘Tenho expectativas de uma
pessoa normal’, diz S.A.P.
Odair StraliottSoropositivo produz peça artesanal na minifábrica da empresária Ana Cristina d‘Arce Cândido Rummel, em ArapongasDo enviado a Arapongas‘‘Olha, você está ótima, muito bem mesmo!’’
Esta foi a frase que a soropositivo S.A.P., 37 anos, uma ex-representante de vendas, ouviu de seu médico na última consulta.
A boa notícia é consequência do coquetel anti-HIV (que revolucionou o tratamento dos portadores do vírus), do amparo do Projeto Oásis e do seu novo emprego na minifábrica de peças de artesanato da empresária Ana Cristina d‘Arce Cândido Rummel.
‘‘Hoje tenho expectativas de uma pessoa normal, não ligo para esta bobagem de sobrevida’’, afirma, com brilho nos olhos. Ela tem o vírus há nove anos e o transmitiu a sua filha, L.E.P., de 3 anos. As duas vivem na casa-abrigo do projeto junto com J.E.F., 29 anos, atual namorado de S.A.P. Os três são vítimas da perversa combinação da nova fase da doença.
Com a popularização dos testes preventivos, os portadores descobrem mais cedo que estão infectados e o coquetel antiviral neutraliza os primeiros efeitos da doença.
Ou seja, uma legião de soropositivos está vivendo normalmente, sem entretanto, ter o respaldo da sociedade, ainda muito preconceituosa, para desempenhar funções de um não-infectado.
‘‘Trabalhei o quanto pude, até ficar mal, depois que me recuperei e passei a me sentir bem, não conseguia emprego’’, conta J.E.F., que hoje é um dos mais talentosos artesãos de Ana Cristina.
Antes de ser amparado pelo Projeto Oasis, J.E.F., há 11 anos soropositivo, ‘‘comeu o pão que o diabo amassou’’, como ele mesmo diz. Perambulou durante três meses pelas ruas de várias cidades do Estado se autodestruindo com drogas e álcool, fugindo do pior dos preconceitos: o da própria família.
Unido, o casal está mais forte para lutar contra o preconceito, que em pequenas cidades é ainda maior. ‘‘Menos de 10% das pessoas continua me cumprimentando como antes. As portas se fecharam para mim, que sempre fui extrovertida’’, relata S.A.P. ‘‘Mas aqui todo mundo me conhece, todos sabem que sou soropositiva’’.
Eles já falam em se casar em breve, ‘‘talvez no começo do ano que vem’’ e desocupar as vagas da casa de apoio. ‘‘Quero criar minha filha trabalhando e poder ajudar os outros como fui ajudada por tanta gente boa’’, planeja S., enquanto trabalha uma peça com as mãos, freneticamente. (L.F.M.)

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