Serelepe, Maria Clara de França Lemes não parou um minuto para fazer a foto. Mostrou que a força ganha com todo o leite materno que consumiu até completar dois anos a ajudou a superar todas as adversidades do parto e dos primeiros dias de vida.
Ela nasceu com oito meses, pesando pouco mais de 1,6 quilo e medindo 39,5 centímetros. Sonia Maria de França Freitas contou que a filha não precisou ficar em encubadora, mas passou dez dias no hospital para se recuperar da cesárea e ganhar peso antes de ir finalmente para casa. ''Eu ia todo dia ao hospital para amamentá-la.''
Depois do terceiro mês de gravidez, Sonia sofreu de pré-eclâmpsia, convulsões associadas à hipertensão arterial. No quinto mês, entrou em trabalho de parto prematuro e precisou de repouso até o momento da cesárea. ''Os diagnósticos do nefrologista e do ginecologista eram contraditórios'', lembrou.
Segundo Sonia, o nefrologista queria fazer o parto logo, pois estava preocupado com a pressão arterial dela, que era crítica. Já o ginecologista queria segurar o bebê no útero o máximo possível para evitar possíveis sequelas de um parto prematuro.
''Eles conversavam muito, trocavam informações. E se não fosse pelo ginecologista, eu teria tido o bebê com sete meses'', relembrou Sonia, que sentia o incômodo comum dos últimos meses de gravidez, associados aos aumentos de pressão. ''Apesar da dúvida dos médicos, eu estava segura porque acreditava neles.''
O tempo que ganhou no ventre da mãe rendeu à Maria Clara um pulmão mais forte para enfrentar a prematuridade. ''Ela nem precisou entubar quando nasceu'', comentou Sonia. ''Ela era pequena mas forte. Foi um risco bem calculado dos médicos'', completou a mãe, que visitava o consultório do ginecologista dia sim, dia não, para realizar ultra-sons antes do parto.
Aos dois anos e dois meses, Maria Clara já consultou um nefrologista e um endocrinologista para acompanhar sua evolução. Ganhou alta dos dois. ''Os médicos indicaram que ela ainda tem peso e tamanho abaixo da idade, mas que ela pode recuperar o prejuízo de ter sido prematura sem problemas. Ela não teve nenhuma sequela e é bastante resistente, graças ao leite materno'', explicou Sonia.
''Ela é bem forte e quase nunca tem gripe. Foi uma surpresa para todos a sua recuperação'', disse a mãe, com orgulho da filha que já frequenta a creche e ''é tão saudável quanto um bebê de nove meses.''
Surpresas boas como Maria Clara são comuns hoje em dia, afirmou o pediatra Edison Nagata, intensivista neonatal do Hospital Universitário de Londrina. Diferente de duas décadas atrás, quando um nenê com um quilo tinha grande risco de morrer depois do parto, já é possível salvar bebês que nascem pesando pouco mais de 500 gramas. Pequeninos seres humanos que cabem na palma da mão e que depois de um período de internação podem ir para casa quando completam apenas dois quilos de peso.
Mas para Nagata, apesar dos avanços da medicina, os pais devem ter cuidado. ''É preciso respeitar a individualidade de cada bebê e muitas vezes as sequelas podem ser irreversíveis no caso de um nenê muito pequenino.'' Segundo o pediatra, a mortalidade entre bebês que nascem depois de apenas seis meses de gestação ainda é elevada e ''são raríssimos os casos sem sequelas''.
De acordo com o pediatra, de tão invasivos, ao mesmo tempo em que salvam as crianças, os equipamentos das UTIs neonatal também podem causar problemas futuros. ''O útero ainda é a melhor encubadora para o bebê'', alertou Nagata.

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