Temporada de pipas expõe a riscos crianças e adultos
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terça-feira, 02 de agosto de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
Ventos mais fortes, tempo estável e muita pipa colorindo o céu das cidades. Das férias de julho, passando pelos meses de agosto até setembro, as condições climáticas favoráveis abrem a temporada de pipas e papagaios, pois os bons ventos incentivam crianças e adolescentes a abusarem da brincadeira que já faz parte da cultura do brasileiro.
Mas a diversão pode ser bem mais arriscada do que se imagina: a cidade não é o local mais apropriado para esse tipo de aventura devido aos riscos de acidentes como choques elétricos e atropelamentos. ''Turbinado'' com cerol - mistura de cola e pó de vidro que, colocada na linha, a torna capaz de corta as outras - o brinquedo transforma-se em perigosa arma que pode provocar ferimentos graves e até matar.
O cerol não foi o causador direto do acidente que vitimou Douglas Batista Tomé, de apenas nove anos, no dia 15 de julho. Mas interferiu na medida em que o menino foi atropelado na avenida Tiradentes (Zona Oeste de Londrina) quando tentava recuperar uma pipa cuja linha tinha sido ''cortada'' por outra criança que usava o cerol. Desde então, os dias da mãe do garoto passaram a ser vividos na ante-sala da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Infantil, onde o garoto está internado em estado grave. Abalada, ela preferiu não falar sobre o acidente.
Outra vítima recente na região não teve a sorte de ser socorrida em tempo. Em 4 de julho, Emerson Henrique Magalhães, de oito anos, tentava recuperar uma pipa que caiu em um lago de decantação de uma empresa em Cambé e se afogou. O corpo só foi encontrado no dia seguinte.
Os motociclistas também são vítimas frequentes do cerol. Os carteiros motorizados dos Correios só trafegam com motos equipadas com antenas de proteção e ainda passam por palestras com técnicos de segurança no trabalho e bombeiros sobre direção defensiva, destaca o gerente de atividades externas do Centro de Distribuição da Zona Oeste, Odair Crivelaro.
O carteiro Antenor Guelfi Filho conhece bem os riscos de se trabalhar com moto. Antes de começar na profissão, ele se feriu com uma linha com cerol que por pouco não o deixou cego. ''Quando penso nisso me dá até um arrepio'', relata. Há oito anos nos Correios, ele diz que não teve situação real no trabalho, mas afirma que ''é preciso tomar cuidado'', tamanho é o número de garotos, ''e até marmanjos'', que aderem à diversão nesta época do ano.
A Copel em Londrina confirma que as pipas são um problema sério nestes meses. Entre 8% e 15% das interrupções no fornecimento de energia são provocadas por objetos estranhos como pipas e fios com cerol. Os técnicos já encontraram fitas magnéticas e até fios de cobres que foram usados para empinar pipas e papagaios.
Em junho, 22 mil consumidores da Zona Norte ficaram sem energia elétrica por causa de um apagão provocado pelo brinquedo. Em julho, 13 mil clientes de Rolândia e outros cinco mil de Apucarana também sofreram as consequências da arriscada brincadeira. Nos últimos anos, a Copel local se viu obrigada a promover faxina geral em sua rede para retirar fios e pipas enroscadas.
A ONG Criança Segura alerta que os acidentes (lesões não intencionais) são a principal causa de mortes de crianças entre 1 e 14 anos no Brasil e orienta os adultos sobre os perigos escondidos nas brincadeiras com pipas. A ONG aconselha os pais a não permitirem que crianças empinem pipas sobre lajes por causa do risco de quedas graves. O brinquedo também deve passar longe de vias com tráfego de veículos, onde as crianças ficam mais expostas aos atropelamentos, e da rede elétrica, pois o contato entre a linha com cerol e os fios podem provocar choques.


