Tempo de Pipa
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terça-feira, 22 de outubro de 2002
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Londrina Dizem que a vida se divide em fases; que tudo tem seu tempo certo debaixo do sol. Na vida de Murilo, 6 anos, agora é tempo de pipa. Mal pula da cama, pés no chão, o menino corre para a porta da cozinha: ''Mãe, hoje tem vento? Se tem, até o café da manhã fica esquecido na mesa. Da janela a mãe cuidava do pequeno, correndo rua abaixo com a pipa na mão. Foram dezenas de corridas e tentativas frustradas até Murilo conseguir erguer, sozinho, sua primeira pipa no ar. A gritaria foi tamanha que até o vizinho deixou a rede na varanda e veio confirmar a proeza.
Tarde de sábado, e Murilo triunfa sobre os elementos da Natureza. A alegria dura pouco: um estalo inesperado da linha que arrebenta e lá se vai a pipa pelo ar. O sorriso banguela se transforma numa careta de choro. Murilo soluça no sofá da sala. A pipa herdada do irmão mais velho é logo substituída por uma nova e Murilo aprende outro macete: o bazar da esquina vende pipas prontas, com cores dos times de futebol.
Na semana seguinte Murilo ''desfalca'' o cofrinho e os bolsos da família. Um total de oito pipas com as cores do Corinthians sobem aos céus pelas mãos do pequeno, que já se considera um ''mestre''. Risos e lágrimas se misturam nos relatos feitos na cozinha: é linha que arrebentou, pipa presa na árvore, nos fios de eletricidade... um cabedal de tragédias! Murilo fica firme e aos poucos vai adquirindo a destreza para manter a mesma pipa no ar a tarde toda. O garoto aprende a observar a direção do vento, desviar dos galhos e fios de luz e já vai ensaiando ''manobras'' que fazem a pipa girar lá no alto. É quando tudo finalmente vai bem que o pior acontece: uma turminha da rua de cima resolve vir soltar pipa exatamente na rua do Murilo. Os garotos mais velhos fazem a festa esfregam cerol, a mistura de cera e vidro moído nas linhas. Sobem as pipas no ar e a disputa começa. Murilo não tem a menor chance. A alegria vira tortura.
Dia após dia, é só ele botar a pipa no ar e a molecada aparece, com as linhas endurecidas e afiadas pelo cerol. Proibido de usar a mesma ''arma'' Murilo insiste vez após outra, só para voltar a cozinha de mãos vazias e lágrimas de frustração nos olhos. Na sexta-feira, a mãe de Murilo resolve agir: compra salsichas, prepara uma bandeja de cachorro-quente, faz um bolo de chocolate com cobertura e deixa os refrigerantes na geladeira. Da janela da cozinha ela vê quando os meninos apontam na esquina.
Rápida, carrega o lanche para a calçada e chama a garotada. Desconfiados, eles se aproximam devagar. Com a sabedoria que só as mães têm, ela distribui sanduíches, bolo e refrigerantes enquanto elogia a perícia dos garotos com a pipa. Boquiaberto, Murilo só observa. Entre uma mordida e outra, ela explica o drama do filho para os garotos. Fala do perigo do cerol, sem ameaças nem exigências. Simplesmente, diz que não permite Murilo usar a cera com vidro e que o menino não consegue mais brincar com a pipa.
Os garotos entendem o recado. Devoram o resto do lanche, agradecem a ''tia'' e correm para aproveitar o vento. Meia hora depois, da janela da cozinha, a mãe de Murilo sorri ao lado de um menino mais velho, o filho aprende uma nova manobra. A ordem geral no bairro é deixar em paz o filho da tia do sanduíche. Na boa!


