Rolândia – Escrever o primeiro nome é uma conquista para a aposentada Elisabeth Bettin. As letras de forma são construídas aos poucos, com todo o capricho. A senhora de 92 anos não tem pressa e já fez as pazes com o tempo. Mas se engana quem imagina dona Beth como uma bisavó tranquila, dedicada apenas ao lar. A agenda fica na memória e os compromissos estão na ponta da língua. "Vou sair mais cedo hoje. Tenho que fazer almoço para os meus dois filhos e depois volto aqui para as oficinas a tarde. É muito bom. A gente conversa bastante com as amigas e dá tempo de fazer tudo", avisa.
Depois de educar os seis filhos e ajudar na criação dos 17 netos e dos 14 bisnetos, dona Beth mantém a vida ativa e organizada com uma lucidez invejável, características comuns entre as 26 alunas da turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Rolândia (Região Metropolitana de Londrina). As aulas são realizadas pela manhã, de segunda a sexta-feira, na Biblioteca Cidadã do Conjunto Domingos Neves. À tarde, as idosas podem participar das oficinas de dança, tricô e crochê no Centro de Convivência que fica ao lado.
A maioria das senhoras matriculadas no EJA não conseguiu frequentar a escola durante a infância. A rotina difícil na roça e a dedicação à família comprometeram os estudos. "Eu nunca tinha entrado numa sala de aula. Hoje eu gosto de estudar", diz Olívia Messias Gomes, de 77 anos.
Com o aprendizado, veio a independência. Ler placas nas ruas para procurar endereços ficou mais fácil. Muitas se incomodavam em ter que pedir ajuda para chegar ao destino. "É uma alegria sair por aí. Fazia muita falta a leitura. Agora a mente também fica esperta", destaca Maria Aparecida Mamedio, aos 86 anos. Ela e outra Maria, a aposentada Maria de Lourdes Cardoso, de 79, acordam cedo para ir às aulas. As duas moram longe e seguem de ônibus até a Biblioteca Cidadã.
A primeira medida de Maria de Lourdes ao conseguir escrever o primeiro nome foi alterar todos os documentos. "Coloquei o sobrenome do meu segundo marido e troquei o ‘dedão’ da identidade pela minha assinatura. Escrevi o meu nome. Agora é vida nova!", comemora.

Troca de experiências
Na turma de EJA tem apenas um homem. Giovani Alves de Oliveira, de 16 anos, nunca falta à escola. "Gosto de todas elas. A idade não importa. A gente aprende bastante", comenta o adolescente.
A história de vida e a dedicação das alunas surpreendem a professora Sônia Maria Bello. "É mais fácil trabalhar com elas do que com as crianças e adolescentes. Elas têm vontade de aprender, entendem a importância das aulas e, por isso, o retorno é maior", garante.
A diretora da biblioteca, Neide Aparecida Carvalho, conta que o número de interessados aumentou. "A prefeitura estuda abrir outra turma à tarde", afirma. As novas descobertas ajudam a turma a renovar as energias. Dona Beth está mais animada e pretende chegar aos 100 anos. "O pensamento já tá lá na faculdade", diz sorrindo.

Serviço
Os interessados em alfabetização devem procurar a Biblioteca Cidadã na Rua Antônio Campaner, 1.000, no Conjunto Domingos Neves, em Rolândia. O telefone para contato é (43) 3906-1136.

mockup