Tem gosto para tudo
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de abril de 2009
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Do Conjunto Maria Celina para o mundo. Foi num bairro carente da Zona Norte de Londrina que surgiu uma dupla imbatível no sumô nacional: as irmãs Jaqueline e Janaína, terceira e oitava melhores atletas do mundo na categoria peso pesado, respectivamente. Elas fazem parte de um grupo de atletas londrinenses que se apaixonaram por esportes nada convencionais. E para quem ser gordinha era motivo de tristeza no passado, hoje, os quilinhos a mais são uma importante arma contra as adversárias, principalmente as européias, ''assustadoramente enormes'', como descreve Jaqueline de Fátima Silva, 24 anos. ''Treino até doente'', garante Janaína Fernanda Silva, quatro anos mais nova, que já conhece até a Estônia.
Depois de assistir a um treino na Associação Kaiko, onde são ensinadas inúmeras artes marciais, a dupla encontrou seu lugar no esporte e garante que não tem para ninguém quando o assunto é sumô feminino: ''Não deixamos ninguém chegar. Só nós duas vencemos e revezamos entre primeiro e segundo lugares'', brinca Jaqueline.
Ela não sabe explicar por que, mas não fica sem o sumô, que pratica há três anos. ''Já fiz handebol, futebol, sempre gostei de esportes, mas me encontrei no sumô'', conta a atleta, que conheceu a Tailândia durante um campeonato mundial. Segundo o técnico Cassiano Joaquim Gomes, desde que iniciou a atividade, Jaqueline perdeu 25 quilos, mas acabou recuperando peso. ''Ela diz que está em paz consigo mesma e que quer ir para cima das adversárias'', justifica.
Estela e Tainá Miranda Leão também são irmãs e iniciaram a prática do sumô há menos de um mês. Elas já se dizem apaixonadas pelo esporte. ''Assisti a um curso, gostei e resolvi experimentar'', conta Tainá, que já aprendeu a golpear pernas e garganta e a se desviar da adversária com destreza.
''É facinho e os professores são superlegais. Não acho nada pesado'', completa a atleta, que treina três vezes por semana. No domingo passado o pai delas, Antônio Aparecido Leão, foi assistir ao treino pela primeira vez e ficou impressionado com a desenvoltura das filhas. ''Elas só falam nisso.''
Mais do que ensinar artes marciais, os mestres da Associação Kaiko modificam a filosofia de vida dos alunos. ''Arte marcial é um conceito de vida. Aqui ninguém luta para ganhar e sim pelo prazer de competir'', diz Cassiano Gomes. Segundo ele, a Kaiko existe há 26 anos e retomou o ensino do sumô há seis. Hoje, em parceria com os filhos Cassio e Caio, Gomes toca um projeto de inclusão para jovens carentes, que ensina artes marciais a 120 garotos e garotas londrinenses.
''É a primeira escola de sumô do Paraná'', garante o treinador, que iniciou a participação em competições nacionais e internacionais ''por livre e espontânea pressão dos alunos, que não se contentavam só com as disputas internas'', lembra Gomes. Há quatro anos, a equipe londrinense participou como convidada do Brasileiro de Sumô, em São Paulo, e desde então, modificou a realidade do esporte no País.
''Chegamos em São Paulo, um monte de brasileiros em meio aos japoneses, e demonstramos tamanha educação, que acabamos com o preconceito dos orientais'', comenta o treinador, que conta com verbas da Prefeitura e da Sercomtel para fornecer uniformes, pagar transporte e inscrições nos campeonatos e ainda alimentar os atletas.
''Por nossa causa, hoje, 80% dos praticantes brasileiros de sumô já não são descendentes de japoneses'', orgulha-se Gomes, ressaltando que 16 dos 21 títulos do sumô disputados no ano passado no País ficaram com a equipe londrinense.


