Aqui jaz muito mais que um número. Em algum ponto de Londrina, o aparelho falou, fez ouvir, tocou, alimentou-se de fichas, expeliu as desnecessárias. Era alto demais para as crianças. Baixo demais para os jogadores de basquete. Gostava muito de Londrina, onde mais conversou. Uma vez ou outra aparecia em outra cidade, com passagem paga pelos anfitriões, interurbanos a cobrar. Um dia, foi longe: um dekassegui lá em Tóquio trocou os dedos na hora de discar. Ele era sutil testemunha de namoros e casos ilícitos - ah, se o orelhão falasse! Porém, que os moralistas não o acusem. Ninguém pode negar: este ser de metal era amigo que servia nas emergências. Camaleão vermelho que virava polícia, bombeiro, ambulância, relógio, garçom, médico, confidente, mãe, filho, colega de trabalho, professor - conforme a ocasião. Na vida, conheceu muitos enganos. Nenhum, porém, comparável ao último, que o vitimou. Sempre desarmado e afável, ele saudou seu último visitante com o boa-noite que conhecia: o sinal de linha. Porém não ouviu alôs. Foi morto pelo engano que a lista telefônica não corrige, conhecido pelos nomes de vandalismo e estupidez. (Paulo Briguet)

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