A gota de chuva que rasga o espaço e bombardeia a terra. O piar dos passarinhos pelas manhãs. O zumbido da abelha que se alimenta da flor. A onda que beija a areia da praia. O espocar dos fogos inaugurando cada novo ano. O ruído de carros e motos. O xixi caindo na cerâmica do vaso sanitário. A risada da vovó. A voz carinhosa da mãe. Que sensações sons simples como estes podem causar em quem nunca ouviu e, de um momento para outro, ganha de volta esse sentido fundamental para a espécie humana? O estudante de Londrina, Gustavo Custódio Grande, 17 anos, vive essa experiência.
Em novembro, o adolescente se tornou o primeiro paciente a se submeter a um implante coclear em Londrina. O aparelho, colocado em seu ouvido direito, foi ''ligado'' no final de dezembro, a tempo de permitir que o menino ouvisse pela primeira vez o show de fogos coloridos que marcam todo Réveillon. ''Ele ficou emocionado'', revela a mãe, a empresária Márcia Custódio Grande. Desde então, cada som é um aprendizado, uma vez que sofria de surdez profunda desde que nasceu e, portanto, não tinha tido nenhuma experiência sonora nem conhecia os signos da linguagem culta. Por isso, terá que frequentar sessões de fonoaudiologia para se familiarizar com este novo jeito de interpretar o mundo.
Mas a mãe garante que a adaptação de Gustavo é fantástica. ''No início foi um pouco difícil porque ele não compreendia quase nada do que ouvia mas, agora, já está tudo bem mais fácil'', comemora, apontando que o filho só tira o aparelho para tomar banho e dormir. ''Hoje percebo que ele é mais participante com a família e parece que quer mostrar para todo mundo que consegue ouvir'', complementa Márcia.
O próprio Gustavo confirma que as coisas do mundo ganharam novos contornos desde quando conseguiu ouvir pela primeira vez. ''No começo não entendia as coisas mas é muito bom ouvir. Quando encontrei minha avó, minha mãe, meu pai e ouvi o que diziam fiquei arrepiado de emoção. Minha família é a melhor do mundo e me ajuda muito'', agradece.
A percepção do adolescente faz sentido quando se conhece um pouco mais sua história. A mãe conta que a surdez do filho foi descoberta na infância mas nem por isso o menino foi apartado do convívio social. ''Sempre fiz de tudo para que ele tivesse independência'', afirma Márcia.
Matriculado no Instituto Londrinense de Educação de Surdos (Iles), Gustavo foi alfabetizado e hoje frequenta as aulas do segundo ano do ensino médio. Mas Márcia admite que o implante coclear foi um divisor de águas na vida do jovem. ''Tenho certeza que hoje ele é muito mais feliz e era só isso que eu sempre quis'', conclui, emocionada.

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