Técnicos pedem prioridade para fauna
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sexta-feira, 17 de julho de 1998
Paulo Pegoraro 
Os agressivos efeitos sobre a vida animal e todo o ecossistema com progressivo comprometimento da biodiversidade, em decorrência de obras de grande impacto ambiental, exigem dos empreendedores cuidados cada vez maiores para minimização estes impactos, além do que a própria legislação determina. Esta foi uma das exigências feitas ontem por especialistas de centrais elétricas, fundações e órgãos oficiais do meio ambiente de vários estados, no encerramento do Encontro do Setor Elétrico sobre Operações de Enchimento de Reservatórios e Resgate de Fauna, no canteiro de obras da hidrelétrica de Salto Caxias, que está sendo construída pela Copel no Rio Iguaçu, entre Capitão Leônidas Marques e Nova Prata do Iguaçu. Os biólogos querem que os animais sejam considerados prioridade no aspecto ambiental dos projetos.
A bióloga Genoveva Maurique, da empresa Geradora Elétrica Sul do Brasil (Gerasul), sucessora da Eletrosul, observa que a prioridade em obras de impacto são os contingentes humanos impactados. Ela salienta que os contingentes humanos cada vez mais se organizam na defesa de seus direitos, enquanto os outros elementos da natureza não têm voz.
O agrônomo Paulo Bezerra Neto, da entidade não-governamental Núcleo de Pesquisa e Conservação da Fauna, que atua na Companhia Energética de São Paulo (CESP), relata que há 200 novas barragens previstas para o País e que elas impactarão violentamente 10 milhões de animais - dos quais três milhões de mamíferos - com os alagamentos decorrentes do represamento de rios. Em cada barragem, pela média, há interferência sobre a vida de 50 mil animais.
Para Bezerra Neto, por melhores que sejam os projetos ambientais de barragens, nenhum serve como modelo, porque os impactos podem ser maiores ou menores, mas existem e são graves. No caso da barragem Sérgio Motta - ex-Porto Primavera -, construída pela CESP no Rio Paraná, mas com enchimento do reservatório ainda indefinido, ele observa que hoje ela muito possivelmente não seria iniciada.
O projeto começou a ser executado há quase duas décadas, quando não havia legislação sobre impactos ambientais. Para gerar apenas 1.840 MW, terá que ser formado um reservatório de 2.250 quilômetros quadrados, dos quais 1.850 de alagamentos, principalmente grandes regiões de várzea no lado do Mato Grosso do Sul.
O engenheiro florestal Antonio Audi, comenta que, em sua idealização, o projeto só não foi mais burro que Brokopondo e Balbina - referindo-se às barragens no Suriname e no estado do Amazonas.


