Técnicos convivem com as lendas Paulo WolfgangEstudantes da área da saúde da UEL, no Laboratório de AnatomiaPaulo WolfgangAline Nishigawa e Ilka Maria Ikebuti: difícil nas primeiras aulasPaulo WolfgangAgnaldo Nascimento Teixeira: movimentos estranhos no laboratório Lino Ramos De Londrina Portas que se fecham, tanques de formol que se abrem sozinhos e ruídos estranhos vindos do nada. Essas são histórias do cotidiano dos técnicos do laboratório de Anatomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), por onde passam anualmente mais de 900 alunos dos cursos da área médica. À primeira vista, os corredores escuros do departamento podem representar um local indesejável, porém mais de três mil pessoas visitam o laboratório somente no mês de outubro, quando é desenvolvido o Projeto Conheça a UEL. Uma história intrigante – confirmada pela vice-chefe do Departamento de Anatomia, Maria de Lourdes Ferreira –, ocorreu há mais de cinco anos, quando uma aluna da universidade reconheceu um cadáver como sendo o corpo de um tio desaparecido. De acordo com Maria de Lourdes, apesar da situação inusitada, essa aluna teria encarado o episódio com naturalidade. Na opinião da vice-chefe, as histórias sobrenaturais são coisas de alguns guardas-noturnos. ‘‘Eles dizem que ouvem barulhos, mas isso é coisa de cabeça. Aqui existem muitos gambás’’, brinca. Maria de Lourdes e a chefe do departamento Vilma Schwald, explicam que os alunos encaram os cadáveres apenas como material didático-científico e alguns dizem até que doariam o próprio corpo para estudo. ‘‘No início, algumas turmas de psicologia são mais arredias, mas todos ficam anciosos no sentido de estudar o corpo humano’’, explica Maria de Lourdes. A estudante do segundo ano de Enfermagem, Aline Nishigawa, 19 anos, garante que não teve problemas com as aulas de anatomia. Sua colega, Ilka Maria Ikebuti, 19 anos, reconhece que as primeiras aulas não foram fáceis. ‘‘No começo tive uma impressão forte, mas depois a gente vê como objeto de estudo. O ruim é o cheiro do formol que a gente respira e passa até mal’’. Ilka Ikebuti lembra que alguns estudantes gostam de assustar adolescentes que visitam o laboratório. ‘‘Quando vem alunos de 5ª série, eles pegam um braço e cumprimentam: Oi, tudo bem?’’. Agnaldo Nascimento Teixeira, 34 anos, trabalha no Laboratório de Anatomia há 16 anos. Era servente de pedreiro e aceitou a função de zelador porque na época precisava ‘‘pegar qualquer coisa’’. Com o tempo tornou-se auxiliar de serviços gerais e depois foi aprovado num concurso para auxiliar de laboratório. ‘‘Passaram 12 candidatos na minha frente mas levei sorte porque eram mulheres’’. Teixeira lembra que no início estranhou o novo local de trabalho mas com o tempo foi se adaptando. ‘‘Às vezes sonhava que estava tropeçando nas macas e os corpos ficavam descobertos’’. Depois o pesadelo foi se tornando raro. O auxiliar de laboratório garante já ter ouvido movimentos estranhos dentro dos laboratórios de aula, portas se fechando e tampas dos tanques de formol, onde ficam os cadáveres, que se abrindo sozinhas. ‘‘A gente procura não escutar, pra muitas pessoas isso é lenda mas depende de cada um’’, argumenta. O colega de trabalho de Teixeira, Marco Aurélio Zambão, 31 anos e 10 como técnico de laboratório, atesta a história da tampa. Ele diz que certa vez ficou trabalhando à noite e ouviu quando um tanque se abriu, misteriosamente, mas não quis ir conferir. ‘‘Nunca vi e nem quero ver. Com uma pessoa viva você pode, mas com uma assombração vai fazer o quê?’’. Agnaldo Teixeira questiona se os cadáveres que estão no laboratório gostariam de ser objeto de estudo quando eram vivos e leva o pensamento à Deus para lembrar que é preciso ter humildade no coração. ‘‘Quantos corpos não tiveram uma valia em vida e agora estão sendo úteis para o bem da ciência e da medicina, na busca de cura para as doenças?’’, justifica.