Técnicos buscam saída para o caos do trânsito
PUBLICAÇÃO
sábado, 05 de abril de 1997
Osmani Costa 
Josoé de CarvalhoFalta de planejamentoTrânsito caótico no Centro de Londrina: 140 mil veículos circulando em ruas e avenidas tão estreitas como há seis décadasPor várias razões, aquele projeto da companhia de colonização comandada por britânicos que chegou em Londrina, no final de 1934, não foi concretizado. Ele previa a construção de uma pequena cidade com ruas e avenidas estreitas e, no máximo, 30 mil habitantes. Parece que os automóveis não pesaram nos planos de nossos pioneiros e autoridades da época. Passados 62 anos, conclui-se que o projeto inicial era muito acanhado e pouco ambicioso. O tempo e suas circunstâncias imprevistas encarregaram-se de superá-lo.
Londrina possui hoje uma população de aproximadamente 450 mil habitantes e uma frota de automóveis que beira os 140 mil; obtendo assim uma das maiores médias do País, de quase um carro por três habitantes. Somem-se a estes outros 25 mil veículos que vêm de outras cidades diariamente a Londrina, trazendo gente para o trabalho, o comércio, os hospitais, as escolas, as faculdades, a rede bancária e o lazer. Circulam ainda pelas ruas e avenidas da Cidade - quase tão estreitas como há seis décadas - cerca de 300 ônibus urbanos, que transportam diariamente perto de 200 mil passageiros; e outras centenas de caminhões cujos motoristas insistem em realizar a carga e descarga em locais e horários não permitidos.
Esses números e características geraram uma situação de caos no trânsito londrinense, notadamente na região central. Os engarrafamentos e congestionamentos são constantes nas principais ruas e avenidas - Pará, Goiás, Rio de Janeiro, Souza Naves, João Cândido, Sergipe, Hugo Cabral, Maringá etc. -, principalmente nos horários considerados de pico, entre as 7h30 e 8h30, das 11h30 às 14h30, e entre as 17h30 e 19 horas.
As discussões e brigas de trânsito - algumas com violência física e até mortes -, antes presentes apenas nas grandes capitais, tornaram-se rotineiras em Londrina. A tensão do trânsito complicado afeta os motoristas - nem sempre bem preparados - e causam um resultado assustador. No mês passado, ocorreram 508 acidentes - uma média de 16,38 por dia -, que deixaram 184 feridos e seis mortos. No último ano, foram 5.782 acidentes, 2.115 feridos e 92 mortes.
As autoridades policiais e municipais ligadas ao setor são unânimes em admitir a gravidade da situação e se dizem preocupadas em buscar as soluções possíveis. O presidente do Instituto de Pesquisas e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Mario Stamm Junior, avalia que este caos no trânsito só será superado a médio prazo; depois de aprovado e implantado o novo Plano Diretor, que os engenheiros e técnicos estão terminando de elaborar e ele pretende encaminhar à Câmara Municipal no próximo mês.
O Plano Diretor - que substituirá as atuais leis de zoneamento e ocupação do solo urbano - trará um novo e moderno traçado para a malha viária da Cidade, estruturada a partir do que existe hoje e prevendo a construção de um grande contorno limítrofe, anéis e eixos estruturais interligados entre si. O contorno rodoviário interligará as quatro regiões geográficas - em volta do perímetro urbano - num percurso de 68 km. O principal anel interno, que interligará os seis eixos estruturais, terá a extensão de 30 km. Os eixos ligarão internamente - através de vias rápidas para automóveis e com canaletas exclusivas para ônibus - as várias regiões em sentidos horizontal, vertical e diagonal. O projeto prevê ainda o alargamento de ruas e avenidas centrais, como a Goiás e a Duque de Caxias, e a construção de um novo aeroporto na região sudeste da cidade, atrás do Shopping Catuaí.
Este plano determinará as macro-diretrizes viárias de Londrina, respeitando os fundos de vales, lagos e rios, e superando as barreiras naturais e acidentes topográficos existentes. Além de aproveitar muitas das boas vias hoje em funcionamento, como a Brasília, a Leste-Oeste e a Expressa. Com ele, nossa Cidade estará preparada para ter um trânsito organizado e inteligente nas próximas décadas, garante Mario Stamm Junior. O trânsito de Londrina está neste caos porque nossos administradores sempre tiveram uma visão acanhada para o crescimento e o desenvolvimento urbanos. Em consequência da falta de planejamento viário, o crescimento se deu de forma desordenada e nossas ruas e avenidas foram recebendo remendos ao longo do tempo.
Mestre em engenharia de transportes, com especialização em Planejamento Urbano na Alemanha, Stamm Junior sabe que um projeto dessa amplitude necessita de recursos não disponíveis nos cofres do Município e do Governo Estadual. Ele adianta que os financiamentos serão negociados junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial (Bird) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do governo federal brasileiro.
A diretora de Operações da Companhia de Urbanização de Londrina (Comurb), Lúcia Brandão, concorda com a necessidade das mudanças estruturais, mas defende também a tomada de medidas mais simples e imediatas que possam melhorar agora a qualidade do trânsito londrinense. Uma delas seria a substituição de todos os semáfaros eletromecânicos - inventados em 1928 e que controlam apenas três movimentos: amarelo, vermelho e verde - pelos modernos eletrônicos, que funcionam através de um minicomputador, controlam 12 movimentos e podem ser programados para operar de várias maneiras diferentes, conforme o fluxo de trânsito em determinados períodos do dia e possibilitando as chamadas ondas verdes. A Cidade conta com apenas um desse modelo, no entroncamento das avenidas Higienópolis e JK (região central).
De acordo com a diretora, está sendo estudada ainda uma readequação dos terminais de ônibus de bairros e a construção de outros dois. A Comurb fará em breve também a adequação da rede de ônibus interbairros, com a criação de novas linhas perimetrais; além de rever a sincronização dos horários de coletivos que chegam e saem dos terminais para o centro e vice-versa. Lúcia Brandão, que também é engenheira de transportes, comenta: Nossa preocupação, trabalhando sempre em conjunto com o Ippul e outras secretarias afins, é melhorar a qualidade do trânsito da Cidade no menor espaço de tempo possível.


