Técnico identifica a mosca da leishmaniose
Alexandre Sanches
De Londrina
A leishmaniose, doença estudada há cerca de 100 anos no Paraná, teve uma descoberta inédita publicada no mês passado em uma revista científica internacional: a do mosquito transmissor da doença, o flebotomíneo Lutzomyia whitmani. O mais importante é que o responsável pela identificação do mosquito é um técnico de laboratório da Fundação Nacional de Saúde (FNS) em Arapongas (37 km a oeste de Londrina.
Norberto Assis Membrive, técnico da Fundação Nacional de Saúde responsável pela identificação do mosquito transmissor da leishmaniose; abaixo, à esquerda, os mosquitos Lutzomyia whitmani; à direita, ferida que se forma na área picada pelo inseto
Norberto Assis Membrive, o técnico, aproveitou as coletas rotineiras de mosquitos no Norte do Estado, realizadas em abril deste ano, e identificou apenas três mosquistos com leishmanias (protozoários flagelados) depois de sete anos se dedicando à pesquisa e 500 casos da doença (Leishmania Viannia braziliensis) detectados em humanos. Fiquei bobo na hora. Até então ninguém tinha conseguido detectar qual era o mosquito e faziam pesquisas há mais tempo do que eu.
Como trabalha em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR), enviou o resultado da descoberta para os professores do Laboratório de Parasitologia Molecular, co-autores da publicação científica. O trabalho foi apresentado no 3º Simpósio Internacional de Mosquitos Flebotomíneos, realizado de 23 a 27 de agosto em Montpellier, França, e publicado numa revista científica. Na publicação, além do nome de Norberto Membrive, estão os dos professores da UFPR, Ênio Luz, Vanete Thomaz Soccol e Edilene Alcântara de Castro.
Membrive diz que o que diferencia o trabalho dele de outros é que procura analisar o mosquito vivo, com base em quatro pontos: o diagnóstico seguro, o estudo parasitológico, o estudo entomológico e o estudo ecológico. No diagnóstico seguro, após identificar uma pessoa infectada com a doença o pesquisador inicia a busca ativa, ou seja, identificar outros doentes na localidade e vizinhança.
Em seguida, inicia o estudo parasitológico do agente etiológico circulante do foco (através de amostras de sangue e de células das feridas dos pacientes). Na terceira fase é tentado identificar espécies de vetores (mosquitos) e, eventualmente, espécies infectadas, que seriam transmissores da doença. Finalmente faz-se o exame em animais domésticos e captura de ratos por serem eventuais reservatórios silvestres da doença.
A leishmania é muito mal estudada. Muitas pessoas possuem a doença e não sabem por desconhecimento, afirma o técnico. O mosquito é encontrado na zona rural em área de mata com córrego ou rio. Temos muitos casos em toda a região norte e até central do Estado. Mas é encontrado também em área urbana.
Quando uma pessoa (ou animal) é infectado com a leishmania, o local onde foi picado pelo mosquito também conhecido como birigui, cangalhinha ou mosquito palha começa a se transformar numa ferida aberta, geralmente arredondada, com bordas um pouco mais altas que a pele normal e de difícil cicatrização. Depois que a ferida seca a pele fica com uma mancha clara, sem pigmentação.
As pessoas que apresentarem os sintomas devem procurar o serviço municipal de saúde para tratamento através de vacinas. Muitos não fazem isso por desconhecimento e porque a ferida aberta não dói, somente coça. Se não houver tratamento adequado, a leishmaniose pode incubar e aparecer depois nas cartilagens (nariz, lábios, garganta), destruindo-as. Em alguns casos mais extremos, pode levar à morte. As pessoas não morrem pela doença em si, mas pelas consequências dela, principalmente na garganta. O doente não se alimenta direito e fica debilitado, explica Membrive.
O técnico reforça que outro detalhe do trabalho realizado pela equipe da FNS em Arapongas é que, além do homem, os técnicos procuram detectar possíveis animais contaminados na região onde é encontrado foco da doença. Membrive procura sempre isolar os animais geralmente cães e gatos para evitar que eles continuem sendo hospedeiros da doença. Recentemente, o técnico encontrou um rato com a doença: Acredito que vai ser difícil para outros pesquisadores conseguirem achar outro rato com os sintomas, diz.





