José Luiz Grilo é um dos raros relojoeiros de Curitiba ainda capazes de consertar os velhos aparelhos de corda ou de pênduloAquele velho relógio-cuco ou de pêndulo estragado, que foi herdado dos avós e fica jogado num canto da sala, pode daqui a alguns anos não ter mais conserto. Cada dia, os colecionadores de relógios e os antiquários têm tido mais dificuldades em encontrar profissionais que saibam dar vida a estes aparelhos. A maioria dos bons relojoeiros está se aposentando, deixando em seu lugar profissionais que se especializaram apenas em trocar pilhas e pulseiras dos relógios vendidos a R$ 10,00 no Paraguai.
Em Curitiba, o número de relojoeiros que ainda trabalham com os velhos modelos não passa de dez. ‘‘Existem até alguns que se aventuram a mexer nessas raridades, mas é perigoso deixar que uma peróla caia nas mãos deles’’, diz o antiquário José Leones Braga, que uma vez por mês traz de Chapecó (SC) um lote de relógios para consertar.
‘‘Além de comércio de peças raras, sou um amante de relógios. Por isso me entristeço ao ver que a profissão de relojeiro está desaparecendo’’, conta Braga. O antiquário, que vende para todo o Estado deSanta Catarina, conta que antes tinha um profissional na sua cidade. ‘‘Ele se aposentou e não deixou sucessor. Isso me obrigou a vir a Curitiba à procura de alguém que fizesse o trabalho’’, diz. Com o tempo, ele foi percebendo que os relojeiros de Curitiba também foram diminuindo. ‘‘Na parte da rua Riachuelo e em torno da Tiradentes era possível encontrar um grande número deles. Hoje é pequeno o número. Só restaram os bem especializados’’, afirma.
Amor à profissãoO relojeiro José Luiz Grilo, da Grilo Relógios, concorda com o colecionador. ‘‘Noto que a minha profissáo está em extinção’’, comenta. Ele diz que a proliferação dos relógios digitais fez com que os modelos à corda começassem a sumir. ‘‘Com isso, o conhecimento de mecânica de relógios que estava na cabeça da velha guarda está se perdendo’’.
Grilo é um dos raros casos de relojoeiro jovem que atua na área de relógios de pêndulos e de cordas. ‘‘Herdei de meu pai a loja e o gosto por esta arte’’, diz. Antes de se envolver como relojoaria, quis fazer arquitetura e engenharia mecânica, chegando a cursar o último. ‘‘Um dia resolvi abrir meu próprio negócio. Foi quando meu pai quis vender a loja, para se aposentar. Acabei assumindo o negócio e gostando da profissão’’, conta.
Hoje, ele explica que sente enorme prazer em trabalhar nesta área. ‘‘Na minha loja, metade do faturamento vem dos consertos de relógios, mas o que me satisfaz mesmo são os antigos, que são aparelhos que têm vida e história’’, diz. Ele conta que a maioria dos modelos antigos são herança de família. ‘‘Por causa da grande durabilidade desses aparelhos, tem gente que tem relógio de mais de 100 anos’’, conta. ‘‘Por isso, é preciso tratar essa memória com muito carinho’’, complementa.
Para ser um bom relojoeiro, é preciso ter muita paciência. ‘‘Um conserto pode durar meses, porque é preciso verificar o funcionamento da peça a cada instante, vendo como ele trabalha, por exemplo, com corda total ou meia corda’’, explica. Outro item, é gostar de mecânica. ‘‘Quando se faz um orçamento é preciso conhecer a função exata de cada engrenagem, bem como os movimentos dos mancais (pontos de apoios das engrenagens)’’, informa.
O relógio que deu maior prazer ao relojoeiro foi um que equipava as estações ferroviárias norte-americanas. ‘‘Um senhor arrematou este relógio num leilão, mas como não entendia do assunto não deu muito importância ao aparelho. Quando resolveu consertá-lo, descobri que tinha em mãos uma raridade’’. O proprietário foi procurado por colecionadores e antiquários para vender o relógio e, na época, ofereceram o equivalente a um carro zero quilômetros. Interessado pelas propostas, ele procurou um relojoeiro que deixasse o aparelho em ordem. ‘‘Depois de várias tentativas, ele veio me procurar. Acabei consertando o relógio’’, finaliza.

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