Curitiba - O técnico em refrigeração Sérgio Luiz da Paz, 35 anos, ficou dez dias preso no 4º Distrito de Polícia em Curitiba, sem ter cometido nenhum crime. A prisão também não pode ser considerada um erro da polícia ou da Justiça. Na verdade, o que aconteceu é que há dez anos Sérgio deixou sua carteira de identidade como garantia para poder entrar no Paraguai para trabalhar. Como não teve dinheiro para resgatar o documento, voltou ao Brasil e passou a usar uma carteira de identidade que tinha tirado antes de completar 18 anos.
Durante dez anos, o fato de não ter comunicado à polícia o extravio de sua carteira de identidade não lhe causou problemas. Mas no dia 6 de julho, Sérgio foi até a delegacia registrar uma queixa contra o seu vizinho, que havia agredido sua mulher. Ao chegar lá, os policiais lhe informaram de que havia um mandado de prisão no seu nome.
Ele foi preso e o advogado levou dez dias para conseguir provar que Sérgio não era a mesma pessoa que havia cometido diversos crimes, inclusive tráfico de drogas. Essa pessoa trocou a foto da carteira de identidade de Sérgio e assim o nome dele é que passou a constar como traficante.
Nos dez dias que ficou preso, Sérgio dividiu uma cela de três metros quadrados com outros nove presos. ''Nem quem cometeu um crime realmente não merece ficar num lugar daqueles'', considera o técnico. O frio, a umidade e o desconforto foram os inimigos de Sérgio na cadeia. ''Os presos não me incomodaram. Eles têm uma linguagem própria e um jeito de se comportar que a gente não entende direito'', conta Sérgio.
Sérgio, que trabalha há 13 anos na oficina de refrigeração, gastou mais de R$ 900,00 para provar sua inocência. Ontem, enquanto a reportagem da Folha estava na casa dele, o técnico da Copel foi até a casa dele para cortar a luz.
Pai de quatro filhos, o que Sérgio mais lamenta não é o prejuízo que amargou com o engano. ''O pior é a marca que fica na gente'', conta ele. Ontem, no caminho para o trabalho, um morador do bairro passou por ele e lhe cumprimentou chamando de presidiário. ''Meu filho mais velho, que tem 13 anos, não quer sair de casa de vergonha dos amigos.'' Ele deve entrar na Justiça pedindo uma indenização pelo engano.
Para evitar que enganos como este aconteçam, o delegado do 4º Distrito, Luis Alberto Salles, avisa que sempre que um documento for extraviado, é preciso ir até uma delegacia registrar o fato. ''Mesmo que o documento seja perdido em outra cidade, ou outro estado, a pessoa pode registrar o extravio na sua cidade. O importante é não deixar de registrar a perda'', alerta.

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