Teatro resgata auto-estima de mulheres
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quinta-feira, 25 de maio de 2006
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Arapongas Caixas de papelão imitando casas, com direito a enfeites e personagens, são o ponto de partida para histórias cheias de emoção, contadas por mulheres que tiveram diferentes experiências de vida. Elas fazem parte do projeto de teatro Mascates de Memórias, que está sendo desenvolvido em Arapongas (37 km a oeste de Londrina), pela equipe da Casa das Fases Núcleo de Arte e História em parceria com a ONG Arte & Vida, daquele município, e o Programa Paranização, do Centro Cultural Teatro Guaíra.
A partir das memórias do grupo de 15 mulheres, com idades entre 65 e 77 anos, está sendo montada a peça ''Cápsulas do Tempo'', que será apresentada de hoje a domingo em escolas da cidade. Sob direção de João Henrique Bernardi, elas resgatam momentos da infância e da juventude, contam traumas enfrentados e superados, lembram de passagens nem sempre alegres.
Geni Barbosa da Silva, de 75 anos, revela a infância cheia de privações, quando a família não tinha recursos para comprar as desejadas bonecas de porcelana. A única que lhe passou pelas mãos foi dada pelo marido, logo após o casamento, e guardada durante anos, até que a filha a quebrasse, poucas horas depois de ganhá-la. Com a mesma determinação que enfrentou os muitos desafios da vida, Geni juntou os cacos do seu brinquedo precioso e os enterrou sob uma roseira.
A experiência é contada de maneira simples, e o espetáculo não exibe grandes recursos. E nem precisa, já que o objetivo ali é outro. ''Trabalhamos a improvisação, a alegria e a essência de cada uma das participantes. Valorizando estes aspectos, promovemos a auto-estima de cada uma'', revela Fabrício Borges, historiador da Casa das Fases, responsável pela pesquisa.
Marcelo Emygdio, presidente da Arte & Vida, define a experiência como ''oficinas de integração e convivência''. O projeto, sem que Emygdio soubesse, foi o resgate de trabalho realizado em 2003. ''Oito ou nove mulheres que estão aqui já haviam participado da primeira montagem. Nossa intenção agora é não deixar o projeto morrer em Arapongas. A Casa das Fases deve dar assessoria para os próximos trabalhos.''
Entre as que já haviam passado pela experiência anterior está Maria Rodrigues Vasconcelos, de 71 anos, uma das mais animadas do grupo. Na sua participação, ela canta e recita versos da cultura popular, para relembrar uma festa em que foi cortejada por um viúvo. ''Sempre fui muito vaidosa, sempre gostei de me enfeitar. Minha mãe dizia que eu era diferente das outras crianças. E o teatro para mim é uma emoção, eu me entrego.''
A mesma paixão é demonstrada por João Henrique Bernardi. ''Trabalho com a terceira idade desde 86, e hoje não saberia dirigir outro tipo de grupo. É um grande prazer, uma energia muito grande. Ao longo destes anos, fomos colecionando muitas histórias.'' O projeto Mascates de Memórias está em sua 13 realização e já foi desenvolvido em cidades como Londrina, Toledo, Cascavel e Atibaia (SP). Em cada um destes lugares, foi realizada uma montagem inédita.
No dia 19 de junho, às 17 horas, a Cápsulas do Tempo será apresentada em Londrina, durante o Festival Internacional de Teatro (Filo).


