O taxista Antonio Roverso, 60 anos, que simulou o próprio sequestro e se automutilou para tentar receber R$ 200 mil de seguro, poderá não ser insiciado por tentativa de estelionato. A possibilidade foi sugerida ontem pelo delegado operacional da 16ª Subdivisão Policial de Campo Mourão, Lindomar Alves Júnior. ‘‘A polícia agiu rápido e o golpe foi descoberto antes que o taxista acionasse as seguradoras’’, explicou o delegado.
Nesse caso, Reverso teria que responder apenas por falsa comunicação à polícia, que prevê pena inferior a um ano de prisão e chega a descartar a abertura de inquérito. Reverso responderia apenas um termo circunstanciado. Mas se for indiciado por estelionato tentado, a pena pode chegar a três anos. O crime de estelionato prevê penas de 1 a 5 anos de prisão, mas, no caso do taxista, ela pode ser reduzida à metade pelo fato de nada ter sido concretizado.
Roverso confessou anteontem à polícia que se automutilou – ele decepou três dedos e tentou decepar os outros dois, da mão direita – para tentar resgatar R$ 200 mil de quatro seguros que tinha em dois bancos. São dois seguros de R$ 40 mil, um de R$ 20 mil e outro de R$ 100 mil. ‘‘Como ele nem chegou a acionar as seguradoras, talvez não haja como indiciá-lo por tentativa de estelionato’’, explicou o delegado. ‘‘Modéstia à parte, agimos rápido’’.
Alves Júnior anunciou ontem que já foi identificado o homem que ligou para o telefone 190, na quinta-feira passada, comunicando o sequestro de Roverso. Foi o próprio taxista quem revelou o nome do autor do telefonema anônimo, mas Alves Júnior prefere manter o nome em sigilo. Este homem também terá que responder por falsa comunicação à polícia. O comparsa de Roverso chegou a deixar uma bicicleta e um par de muletas numa esquina do centro de Campo Mourão para simular que taxista havia sido raptado. Roverso estava usando muletas porque ainda se recuperava de dois tiros que levou no tornozelo direito, há cerca de três meses.
Anteontem, o taxista confessou que também atirou em si próprio para tentar receber o seguro por invalidez, mas a tentativa acabou frustrada. A família do taxista não quer falar sobre o assunto, mas deverá prestar depoimento à polícia. Roverso contou ao delegado que tentou o golpe porque estava ‘‘desesperado’’. Ele disse que estava encostado pelo INSS devido aos tiros na perna e que o rendimento mensal de cerca de um salário mínimo não era suficiente.
O taxista alegou que precisava de dinheiro para pagar o tratamento da mulher, que tem câncer na garganta. O delegado Alves Júnior teme que Roverso tente o suicídio após sair do hospital. ‘‘Ele nos disse que iria se matar’’, conta o delegado. Segundo Alves, a polícia não tem como montar guarda para evitar um suicídio. ‘‘Ele precisa de um psicólogo’’, frisou.
Para se automutilar, Reverso gastou R$ 11,40. Ele comprou o anestésico Pearson, usado em animais, numa loja veterinária no centro de Campo Mourão por R$ 4,50. No machadinho usado para cortar os dedos, ele pagou R$ 5,90. Já as duas seringas – uma não chegou a ser usada – custaram R$ 1,00. O dono da casa veterinária contou ontem à polícia que Roverso disse que queria o anestésico para castrar porcos. A passagem de ônibus para Cambé custou R$ 15,05.

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