Taxista cortou dedos para receber seguro
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segunda-feira, 15 de maio de 2000
Lúcio Flávio Moura De Cambé 
O taxista Antonio Roverso, 60 anos, confessou ontem à polícia ter se automutilado e forjado o próprio sequestro para receber o seguro de vida. Ele justificou o ato alegando que com sua aposentadoria (equivalente a um salário mínimo) não estava conseguindo custear o tratamento médico de sua esposa, que sofre de câncer na garganta. Ele também teria uma filha doente.
No final da tarde de quinta-feira, o taxista foi encontrado por funcionários da Microtubos à margem da BR-369, em Cambé (13 km a oeste de Londrina), pedindo socorro, sangrando muito e apresentando os cinco dedos da mão direita cortados três decepados e dois pendurados. Roverso se dizia vítima de um sequestro motivado por vingança. Encaminhado à Santa Casa, ele teve dois dedos reconstituídos (o polegar e o indicador). Os outros três não puderam ser reimplantados.
Era o segundo atentado sofrido pelo taxista em três meses. No primeiro, Roverso foi baleado duas vezes na perna e ainda se recupera das lesões provocadas na ocasião com sessões de fisioterapia. Ontem, ele também confessou que o episódio também foi forjado. Como ainda não havia conseguido comprovar sua invalidez, decidiu-se pela automutilação.
A polícia descobriu as duas fraudes graças à denúncia de um rapaz que teria sido convidado por Roverso para ajudá-lo a aplicar o golpe. O taxista teria oferecido R$ 20 mil para que o rapaz lhe cortasse os dedos. Ele recusou e, no final de semana, contou tudo ao delegado operacional Lindomar Alves Júnior, da 16ª Subdivisão Policial, em Campo Mourão, que agora ficará encarregado de concluir o inquérito. No episódio de Maringá, ele contratou dois homens procurados pela polícia de Campo Mourão. Segundo investigações preliminares, um dos quatro seguros (que totalizariam R$ 200 mil) do taxista venceria em junho e teria o valor de R$ 100 mil.
De posse destas informações o delegado de Cambé, Antônio do Carmo, foi até a Santa Casa colher um segundo depoimento da suposta vítima. Roverso confessou tudo e foi levado até à margem da BR-369 para relatar como havia se consumado a automutilição.
Em vez do Monza verde descrito no primeiro depoimento e dos dois homens morenos, o taxista chegou ao local sozinho, vindo de ônibus metropolitano. Para chegar a Londrina, ele usou um ônibus de linha. Na rodovia, depois de se certificar que a cena não teria testemunhas, Roverso sacou uma machadinha usada por açougueiros e dois frascos com anestésico para cavalos, seringas e agulhas, produtos comprados ainda em Campo Mourão. Ele aplicou doses generosas do medicamento. Ele disse ao médico que não sentia dor quando chegou ao hospital. Decidido, ele desferiu sete ou oito golpes com a machadinha. Depois juntou todos os objetos e enterrou uma parte em uma curva de nível e outra parte jogou em um matagal.
A Folha tentou ouvir o taxista que continua internado na Santa Casa de Cambé no início da noite mas ele se recusou a receber a reportagem, alegando estar muito nervoso. A direção do hospital informou que seu quadro de hipertensão havia se agravado e desde o momento em que confessou as fraudes passou a chorar ininterruptamente.


