Taxidermia ainda sobrevive em Curitiba
PUBLICAÇÃO
sábado, 18 de abril de 1998
Guilherme Pupo 
Nos últimos 34 anos, Antonio Henrique Doni passou boa parte do tempo entre chifres, olhos de vidro e peles de animais. Ele é um dos últimos artistas da taxidermia - arte de embalsamar animais - no Brasil e um apaixonado pela profissão. No seu ateliê, em uma pequena casa próxima ao Parque da Barreirinha, em Curitiba, o cenário pode chocar visitantes com tendências ecológicas.
Nas paredes, estão penduradas cabeças de cervos chilenos, javalis europeus, tigres e até um leão africano. Ao redor da sala, há várias espécies de aves, além de peles e chifres aguardando o recheio de espuma de poliuretano. Em sua mesa de trabalho e com as calças sujas de sangue, Doni dá os últimos retoques de pintura no couro de um jacaré. Tenho paixão por embalsamar e conservar bichos. Empalho de beija-flor a elefante, conta orgulhoso o taxidermista que empalha, em média, entre seis e oito animais por mês.
Autodidata, Antonio Henrique Doni trabalha sozinho e ainda não encontrou nenhum discípulo que possa dar sequência às suas atividades. É uma profissão em extinção e atualmente são poucas pessoas que têm um trabalho de qualidade, comenta. No currículo, ele já acumula encomendas para o Museu da Usina de Itaipu, Museu Paranaense, indústrias de papel Klabin, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e Colégio Santa Maria.
Entre os clientes particulares, Doni mantém contato frequente com fazendeiros e empresários paranaenses, paulistas, cariocas e matogrossenses que têm a caça como esporte predileto. Nesses casos, os animais abatidos se transformam em troféus particulares e vão parar em salas de visitas como objetos de decoração. Somente esse mês, já recebi quatro faisões, quatro marrecos e um javali, de apenas um caçador, comenta.
Doni garante que todos os animais que chegam ao seu ateliê vêm acompanhados de licença do Ibama. Segundo ele, a grande maioria é proveniente de fazendas de caça, circos e criadouros particulares.
Questionado sobre a crueldade da caça de animais silvestres, Doni acredita que o sofrimento das vítimas é menor que o de um boi morto para produção de carne. Os caçadores profissionais acertam um tiro certeiro e a morte é instantânea. No caso de bois, os matadouros aplicam choques elétricos e marretadas e os animais agonizam antes de morrer, diz. Para ele, a caça faz parte do instinto humano e foi esquecida ao longo do tempo. O que condeno são os caçadores clandestinos, que matam até fêmeas com filhotes na barriga, diz.


