Nos últimos 34 anos, Antonio Henrique Doni passou boa parte do tempo entre chifres, olhos de vidro e peles de animais. Ele é um dos últimos artistas da taxidermia - arte de embalsamar animais - no Brasil e um apaixonado pela profissão. No seu ateliê, em uma pequena casa próxima ao Parque da Barreirinha, em Curitiba, o cenário pode chocar visitantes com tendências ecológicas.
Nas paredes, estão penduradas cabeças de cervos chilenos, javalis europeus, tigres e até um leão africano. Ao redor da sala, há várias espécies de aves, além de peles e chifres aguardando o recheio de espuma de poliuretano. Em sua mesa de trabalho e com as calças sujas de sangue, Doni dá os últimos retoques de pintura no couro de um jacaré. ‘‘Tenho paixão por embalsamar e conservar bichos. Empalho de beija-flor a elefante’’, conta orgulhoso o taxidermista que empalha, em média, entre seis e oito animais por mês.
Autodidata, Antonio Henrique Doni trabalha sozinho e ainda não encontrou nenhum discípulo que possa dar sequência às suas atividades. ‘‘É uma profissão em extinção e atualmente são poucas pessoas que têm um trabalho de qualidade’’, comenta. No currículo, ele já acumula encomendas para o Museu da Usina de Itaipu, Museu Paranaense, indústrias de papel Klabin, Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) e Colégio Santa Maria.
Entre os clientes particulares, Doni mantém contato frequente com fazendeiros e empresários paranaenses, paulistas, cariocas e matogrossenses que têm a caça como esporte predileto. Nesses casos, os animais abatidos se transformam em troféus particulares e vão parar em salas de visitas como objetos de decoração. ‘‘Somente esse mês, já recebi quatro faisões, quatro marrecos e um javali, de apenas um caçador’’, comenta.
Doni garante que todos os animais que chegam ao seu ateliê vêm acompanhados de licença do Ibama. Segundo ele, a grande maioria é proveniente de fazendas de caça, circos e criadouros particulares.
Questionado sobre a crueldade da caça de animais silvestres, Doni acredita que o sofrimento das vítimas é menor que o de um boi morto para produção de carne. ‘‘Os caçadores profissionais acertam um tiro certeiro e a morte é instantânea. No caso de bois, os matadouros aplicam choques elétricos e marretadas e os animais agonizam antes de morrer’’, diz. Para ele, a caça faz parte do instinto humano e foi esquecida ao longo do tempo. ‘‘O que condeno são os caçadores clandestinos, que matam até fêmeas com filhotes na barriga’’, diz.

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