Tática de advogado
livra ex-vereador
de depoimento
Mesmo sem depor, Jacy Aguiar foi à Câmara e fez acusações
Benê Bianchi

César Augusto
Bateu, levouJacy Aguiar com a Folha de 1976: ‘Cativa nunca tomou providência para melhorar a qualidade do leite’O ex-vereador Jacy Aguiar (PDT) se negou ontem a depor na Comissão Especial de Inquérito (CEI) da Câmara sobre a acusação de tentativa de extorsão contra cooperativas de leite de Londrina e Apucarana. Um dos envolvidos na acusação é Fredemax Mota, apontado como ex-assessor de Aguiar. Os outros são Aristeu Rodrigues, ex-assessor do vereador Alvair de Souza (PL) e José Rojas Gavilan, ex-assessor de Beto Scaff (PSDB).
Para que não houvesse o depoimento, o advogado do ex-vereador, Antônio Carlos de Andrade Vianna, protocolou pedido de afastamento do presidente da CEI, vereador Antenor Ribeiro (PPB). A alegação é de que o vereador, que também é apresentador de programas de rádio e TV, estaria defendendo a Cativa (da qual partiu a denúncia de tentativa de extorsão) em seus comentários.
‘‘Ele inclusive tomou leite da Cativa no seu programa de televisão. O vereador pode ser o que quiser, até garoto-propaganda da cooperativa, mas não presidente da CEI’’, disse Vianna. Embora não tenha prestado depoimento, Aguiar compareceu à Câmara e deu entrevistas à imprensa. Ele negou que tivesse qualquer relacionamento com Fredemax Mota. ‘‘Conheço-o apenas como assíduo frequentador da Câmara.’’
Aguiar afirmou ter solicitado à Câmara a coleta de amostras de leite na Cidade para encaminhamento ao Instituto Adolfo Lutz, em São Paulo. ‘‘Como e quem fez a coleta foram decisões da Casa.’’ O ex-vereador negou ainda que tivesse apresentado Mota para o presidente da Câmara, Adalberto Pereira (PFL), e ao promotor de Defesa do Consumidor, Leonir Batisti, que acompanhou a coleta das amostras. Tanto Pereira quanto Batisti já afirmaram ter sido apresentados a Mota por Aguiar.
‘‘Meu único envolvimento nessa história ocorreu de forma legal, no exercício de meu mandato, na minha luta contra os poderosos da Cidade que exploram o consumidor vendendo a ele leite podre’’, afirmou em tom de discurso, na entrada da Câmara.
Aguiar anunciou que tinha uma ‘‘informação muito importante’’ para dar e em seguida mostrou à imprensa recortes da Folha de 1976, quando ele - que era vereador na época - solicitou análises do leite da Cativa ao Instituto Adolfo Lutz. ‘‘O resultado foi o mesmo de agora. Eles nunca tomaram providência para melhorar a qualidade do produto.’’
Ele disse que recebeu das mãos de Mota os resultados das análises de leite feitas mês passado e os entregou, imediatamente, à presidência da Câmara. Segundo ele, o envelope já estava aberto.
Aguiar insistiu no fato de que a presidência tinha conhecimento de todos os atos de Mota, inclusive que ele acompanhou o motorista da Casa, Márcio Vidotto, na viagem a São Paulo para levar as amostras para análise. Após a entrevista, Aguiar deixou a Câmara, afirmando que só presta depoimento se for nomeado outro presidente para a CEI.
O assessor jurídico da Câmara, Adyr Sebastião Ferreira, deu seu parecer ao pedido do advogado Vianna ontem mesmo. Segundo ele, não há motivo para haver mudanças na CEI. ‘‘O ex-vereador Jacy Aguiar não é obrigado a depor. Há apenas um dever, como cidadão, de prestar esclarecimento. O que ocorreu foi a utilização de uma tática jurídica para que não houvesse o depoimento.’’
As declarações de Aguiar de que a presidência da Câmara sabia do envolvimento de Mota na coleta das amostras de leite desagradaram Adalberto Pereira. Ele voltou a afirmar que Mota entrou na sua sala apenas uma vez e estava na companhia de Aguiar. ‘‘Vou acionar civil e criminalmente Fredemax Mota e Jacy Aguiar pelas declarações mentirosas que têm feito’’, afirmou o presidente.
Segundo Adalberto Pereira, a Câmara aprovou pedido de Aguiar para que fossem feitas análises do leite. Ele ficou com a responsabilidade da coleta e envio das amostras. ‘‘Colocamos à disposição dele um carro e um motoristas, devidamente autorizado pelo plenário, para realização dos trabalhos.’’
A coleta das amostras de oito marcas de leite foi feita em vários pontos de venda da Cidade no dia 17 de março último. Cinco foram consideradas insatisfatórias: Cativa, Londrina, Guri, Macial e Ubá. Foram consideradas satisfatórias as marcas Batavo, Caitu e Reggio.
De acordo com as acusações, os ex-assessores de vereadores teriam tentado extorquir R$ 30 mil da Cativa e R$ 50 mil da Central Norte, de Apucarana (responsável pelas marcas Macial e Guri), para que não divulgassem o laudo.

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