Tamanho das propriedades preocupa
Temos medo de divulgar isso neste momento, mas dos 700 mil hectares de soja que são plantados a cada safra, 200 mil são de brasileiros. A comunidade brasileira é muito importante dentro da produção de soja do Estado de Santa Cruz, pois se destaca pela tecnologia e pela excelente técnica de produção, diz, receoso, o boliviano Jaime Hernández Zamora, gerente de planificação e gestão da Associação Nacional de Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo). Ele justifica o temor explicando que há uma tendência nacionalista por parte do governo. Nesse contexto, as propriedades de brasileiros não estariam completamente seguras.
Segundo Zamora, o plano de uso de solo boliviano é de 1995 e precisa ser revisto. Ele diz que a legislação vigente deixa muitas brechas para que o governo tome terras de qualquer produtor. O mais grave é a questão trabalhista. Posso citar um exemplo: se o dono da propriedade for padrinho de batismo do filho de um empregado, ele pode ser acusado de estar abusando afetivamente do empregado e isso pode resultar em confisco de suas terras.
Além disso, mais do que votarem pelo sim ou pelo não no referendo de domingo passado, os bolivianos também responderam sobre o volume máximo de terras que uma pessoa pode ter no país: cinco mil ou 10 mil hectares. Dos quatro milhões de eleitores do país, 72% votaram pelos cinco mil hectares. A maioria dos brasileiros têm mais terra do que isso. Mais um motivo para preocupação, mesmo com Evo Morales garantindo que a decisão do referendo não será retroativa.
Na nova Constituição Federal, aprovada por 60% dos eleitores, um artigo diz que a terra deve ter uma função social. Os opositores de Evo Morales dizem que o termo é vago demais e que pode ser interpretado de forma equivocada.
O paulista de Piracicaba Raul Amaral Campos Filho está desde 1997 na Bolívia. Atualmente, planta 10 mil hectares por safra. Para ele, os agricultores enfrentam um terrorismo de incertezas por conta da situação política. Outra dificuldade é a falta de combustíveis, que começou a acontecer depois que a Yacimientos, estatal boliviana, assumiu o lugar da Petrobrás.
Por aqui, todo mundo tem medo. Todos estamos apreensivos, mesmo sabendo que nos encontramos em situação legal e cumprindo a nossa função social de produtores. Porém, a única coisa que podemos fazer é continuar com o trabalho, lamenta o agricultor, que também faz parte da Fundacruz, uma fundação que desenvolve a tecnologia de 60% das sementes de soja plantadas na Bolívia. (W.S.)





