Uma intuição apurada, muita força de vontade e um talento incomum para construir peças minúsculas, que aos poucos vão compondo um grande e complicado quebra-cabeças. Esta é a receita do caseiro Luciano Soares Gatto, 29 anos, que usou boa parte dos últimos cinco anos para construir uma réplica do veleiro inglês Cutty Sark. O belo exemplar da construção naval do século 19 recebeu os últimos retoques na quarta-feira, e desde ontem está exposto em uma das lojas do hipermercado Super Muffato, em Londrina.
Medindo 1,50m de comprimento por 1,10m de altura, a réplica foi feita com madeiras como pino, balsa, ipê rosa e cedro. Para as 40 velas, Gatto escolheu o linho cru. Orgulhoso, ele mostra cada detalhe da embarcação, como o pequeno canhão (''o original nunca precisou ser acionado''), as casinhas que serviam de banheiro para os marinheiros, a alavanca feita para puxar as correntes, o timão. ''O mais difícil foi a amarração das velas e cordames'', revela.
Há seis anos, o caseiro de uma chácara em Primeiro de Maio (61 km ao norte de Londrina) conseguiu um outro feito: a construção de uma réplica do Titanic. ''Daquela vez, o desafio maior foi construir tudo por intuição, sem ter em mãos o projeto original. No caso Cutty Sark, o desafio foi justamente entender e seguir à risca o projeto, que veio escrito em inglês.'' Gatto conseguiu a planta no museu The Cutty Sark Trust, em Greenwich, Londres. ''Tive que estudar muito para entender'', confessa o caseiro, que se dedicou à construção nos fins de tarde e finais de semana.
Além de se debruçar sobre o projeto, Gatto foi atrás de livros de história para conhecer mais sobre o barco que é considerado um ''sobrevivente'' da Corrida do Chá. ''Ele foi construído em 1869 para transportar chá da Índia para a Austrália. Era um clipper (veleiro rápido) que batia todos os recordes de tempo de viagem. Durante a 1 Guerra, entre 1914 e 1916, ele carregou carvão, tijolo e outros produtos para a África.''
Gatto, que encerrou seus estudos formais ao final do ensino médio, descobriu por acaso a paixão pelas réplicas. ''Fui assistir ao filme Titanic a contragosto, e na hora me veio a idéia de reproduzir o transatlântico. Depois de sair na imprensa, muita gente entrou em contato e sugeriram que eu fizesse o Cutty Sark. Quando descobri que era possível conseguir cópias dos projetos originais pela internet, ficou mais fácil'', explica.
Incansável, ele não pretende parar. Com um sócio que também é apaixonado pelo assunto, montou um ateliê e ambos já estão trabalhando em uma nova versão do Titanic, desta vez mais fiel ao original. Na sequência, os dois sócios querem construir mais uma réplica do transatlântico, porém vaporizada. ''Estou testando a mini-caldeira'', conta. Os exemplares do navio e do veleiro deverão ser alugados para exposição. No futuro, os sócios ainda pensam em se dedicar a encomendas de colecionadores.

SERVIÇO
A réplica fica em exposição durante um mês no Super Muffato da Avenida Duque de Caxias, em Londrina.

mockup