Tacho pode ser de um engenho
Paulo José SoavinskyArlindo Valentin aponta para o local em que estaria enterrada uma gamela, que viu ainda criançaUm dos pescadores mais antigos das Encantadas, Arlindo Valentin, 66, afirma que o panelão enterrado na foz do primeiro córrego que sai na Prainha, em frente ao Camping Tubarão, seria uma grande gamela de ‘‘canela preta’’, vista por ele e outros nativos quando ainda eram crianças. O fato, reforçado por relatos de outros pescadores, inclusive quanto à espécie da madeira, chama a atenção, principalmente porque se sabe que as gamelas e tinas para banho utilizadas pelos nativos da ilha no passado eram feitas da raiz de figueira, mais fácil de trabalhar. Outro reforço para a estória é que na ilha predomina a canela pimenta.
O panelão de ferro enterrado no final da praia do Miguel, próximo das ‘‘pedras furadas’’, é de grande porte e ‘‘está emborcado’’ (virado com a parte convexa para cima), garante o nativo Arlindo. Ele calcula que seriam necessários cerca de 30 homens fortes para levantar o tacho, que está num local curioso, entre as praias do Miguel e Grande, de frente para o mar de fora. Arlindo diz que viu esse tacho à luz do sol há cerca de 15 anos. Zenir Isidoro, 46, é o único dos pescadores que garante ter visto recentemente um dos outros panelões enterrados. Ele conta que viu o panelão de ferro que está enterrado na Brasília e que deu origem ao nome ‘‘Porto do Tacho’’, hoje em desuso, ‘‘ainda no ano passado’’. Arlindo também apontou o local em que está semi-enterrado outro panelão, o da Praia do Miguel, e deu indicação do melhor horário para que se pudesse fazer fotos mostrando um pedaço da raridade, ignorada há anos por ser confundida com uma pedra.
Além dos irmãos Valentim e dos pescadores Tatá, Romão, Francisco, João e Zenir, pescadores que já morreram, como Vô Lavínio (pai de Francisco), Douglas e Thomé, também contaram a mesma história e indicaram o mesmo local onde essas peças enormes estariam enterradas na areia. Mas é o pescador mais antigo da ilha, o Tatá, que joga um pouco de luz sobre a origem desses panelões na Ilha do Mel. Tatá afirma que quando era criança ainda, teria visto colunas de pedra ‘‘da altura de um homem’’, ruínas do que seria um engenho e restos de um muro onde hoje está a divisa do terreno de sua vizinha Lenita e o terreno da família Kava. Ele conta algumas histórias que teria ouvido de seus pais e avós, sobre a existência de um português que morou na ilha e teria construído uma casa no alto do morro Bento Gonçalves, com entrada pela praia do Bananal. O caminho até o local hoje está tomado pelo mato, mas há quem garanta que já foi até lá e pode voltar.
Na beira da praia da Prainha, o português teria erguido uma casa para escravos e, cerca de 100 metros adentro, na mesma direção, ao pé do morro Bento Gonçalves, teria erguido o engenho e outra construção. Vários relatos de pescadores confirmam que seriam três as antigas construções ao nível do mar e uma no alto do morro. Os relatos ganham consistência a partir do que sobrou das antigas construções, que ainda podem ser observadas nas Encantadas. Vô Lavínio chamava de ‘‘Casa das Canoas’’ a ‘‘senzala’’ que estaria a cerca de 20 metros da praia, e chamava de ‘‘Casa da Farinha’’ uma das construções dentro do mato e sobre a qual ainda restam vestígios. Essa seria a origem mais provável da gamela que está enterrada na Prainha. A peça faria parte do antigo engenho.
Mas não há mais edificações inteiras para confirmar a história. As pedras que testemunhavam a presença de construções no estilo português na Prainha foram derrubadas por caçadores de tesouros, e as ruínas que sobraram de algumas delas hoje servem de alicerce para pequenas casas. Um muro conservado pelos proprietários da pousada Estrela do Mar, tocos de colunas e uma pilastra engastada em uma árvore, conservada pela família Kava, é tudo o que sobrou.
Mas o mistério maior ronda os panelões de ferro ou cobre, distribuídos em pelo menos três pontos da Ilha do Mel – no antigo Porto do Tacho (Brasília), na Praia do Miguel e Ponta Oeste –, conforme os relatos dos pescadores. Como foram parar nesses locais, quem os construiu ou para que serviriam exatamente são perguntas sem resposta que peristem ainda hoje. Os pescadores Arlindo e João garantem que não há mistério algum. Seus pais já falavam que esses tachos de metal serviram para a fabricação de sal, produto caro e motivo de contrabando no Brasil Colônia.
João lembra os relatos do seu pai, Pedro Corrêa dos Santos, dando conta que, por volta de 1945, o panelão de ferro da praia do Miguel teria sido carregado até ali por cerca de 40 soldados do Exército, que estariam aquartelados na Fortaleza de Nossa Senhora dos Prazeres. O comandante que teria dado a ordem para que o panelão fosse removido até o forte seria, segundo João, um certo capitão Adrosino. Os nativos Arlindo e Armando confirmam a mesma estória, mas garantem que os soldados carregaram o pesado panelão por ordem de um certo comandante Milton.

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