Londrina Garapeiro há 10 anos, seo Benedito é o tipo de pessoa que não precisa de muita corda para iniciar uma prosa. Dias atrás, para a conversa rolar solta bastou um comentário feito por uma dona de casa, que passava pela Avenida Higienópolis e resolveu tomar um caldo de cana com limão.
– O movimento tá fraco né?
Já revoltado com a situação, o homem não pensou duas vezes. Parecia que o discurso estava pronto, entalado na garganta, só à espera de alguém para puxar o fio da meada.
– Faz 10 anos que estou aqui e nunca vi situação tão ruim. Essa política do FHC é só para deixar o rico mais rico e o pobre mais pobre. O rico produz e exporta grãos, carne, de tudo, e vai ficando bem. O pobre só vai perdendo.
Surpresa com a revolta do garapeiro, a dona de casa tratou de manter o assunto.
– E os aumentos... disse ela.
Seo Benedito mandou ver:
– Botijão de gás a R$ 25,00, sobe a conta de água, de luz, a gasolina... Não tem jeito não.
Enquanto corta o limão que seria espremido junto com a cana, o homem busca um fôlego e a conversa segue adiante:
– Sabe que para piorar a situação ainda teve a lei que proíbe menores de 16 anos de trabalhar... Eu tinha uns 30 moleques que trabalhavam de office boy e que vinham aqui tomar o caldo. Eles ganhavam o dinheirinho para comprar o tênis, a roupa, tomar um lanche, enfim ajudavam também para o movimento da gente. Agora onde estão? Acha que os pais têm dinheiro para comprar o tênis? Eles devem estar é roubando por aí.
Generoso, o bom comerciante ainda acrescenta um ‘‘chorinho’’ ao copo da consumidora que, satisfeita com o agrado, já virou freguesa. E, enquanto a mulher saboreia o que foi acrescido ao copo, o garapeiro não dispensa a ouvinte atenta.
– E tem mais. Não adianta pensar que a situação vai mudar porque o FHC segue a cartilha do FMI. Então os americanos mandam e desmandam no nosso País. Enquanto isso não mudar, nós, pobres coitados vamos continuar pagando o preço da falta de trabalho, de segurança, dos aumentos de tudo e da roubalheira.
Depois de ouvir todo o desabafo, a mulher – surpresa com a desenvoltura do garapeiro – agradece o copo generoso de caldo de cana, retira as moedas da bolsa que somam R$ 0,70 e, antes de seguir a caminhada, procura alentar o vendedor.
– Olha senhor, apesar de toda essa situação, a gente ainda tem que agradecer a Deus porque está com vida, com saúde, vive em uma cidade relativamente tranquila.
O garapeiro, para não desagradar a freguesa, finaliza a conversa com uma brincadeira:
– É isso aí dona. Tá ruim, mas tá ‘bão’!
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