Sustento que vem das ruas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 
Todos os dias o vendedor de redes Geraldo Soares Diniz, de 46 anos, cumpre o ritual de colocar seus produtos expostos no alambrado do local onde um dia funcionou um posto de combustíveis na Avenida Dez de Dezembro, na área central de Londrina. A escolha pelo espaço foi em função do alto fluxo de veículos. Porém, para exercer a atividade, Diniz não tem alvará da prefeitura. Isso lhe causou dores de cabeça quando fiscais da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização de Londrina (CMTU) apreenderam todas as suas mercadorias no ano passado. "Isso causou um prejuízo de R$ 400 para recuperar as mercadorias apreendidas", destacou.
Diniz está na atividade há 13 anos e comercializa redes de todos os tipos, tamanhos e acabamentos. O ambulante relata que saiu da Paraíba e chegou a Londrina há 35 anos para fugir da seca. "Até três anos atrás eu percorria várias cidades para comercializar esses produtos. No entanto, minha esposa vem enfrentando problemas de saúde decorrentes do diabetes e isso me obrigou a procurar um ponto fixo mais próximo de casa, que fica na Vila Casoni, pois uma hora ela está bem, na outra não está mais", apontou.
A produtora rural Claudecir Aparecida da Silva, de 54 anos, precisou recorrer ao trabalho como ambulante após um revés. Ela tem uma propriedade rural de três alqueires em Guaravera, onde produzia mandioca, cará e batatas. A capacidade de produção da terra, porém, foi se esgotando e a trabalhadora foi seduzida pela proposta de uma indústria de sucos de laranja para plantar uma variedade da fruta. "Fui orientada por técnicos do Emater (Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão Rural) e peguei um financiamento do Banco do Brasil no valor de R$ 14,5 mil para comprar as mudas. Quando as árvores começaram a produzir, depois de seis anos, fui oferecer à indústria e o valor oferecido era muito baixo. Como já tinha feito o financiamento para que toda a propriedade fosse coberta pelas laranjeiras, tive que buscar alternativas para comercializar as frutas", relatou.
Claudecir entrou com um pedido de alvará na prefeitura, mas até agora não recebeu a autorização. "Como essas laranjas são o meu salário, e dependo delas para pagar a faculdade de meus dois filhos, o jeito foi vender as laranjas assim mesmo (expondo as frutas na beira da rodovia PR-445), além de entregar em algumas casas. Minha filha ajuda, realizando as vendas em outro ponto da cidade", destaca.
O vendedor de pipas e cataventos que trabalha na Avenida Rio Branco, na área central, Dionísio Defende, de 67 anos, já sofreu prejuízos com apreensões de mercadorias. Hoje garante que atua de forma regular, com alvará. "Paguei R$ 116 no último ano", conta. Antes de optar pela Rio Branco, ele vendia os produtos às margens de rodovias na região de Bandeirantes (Norte Pioneiro). No entanto, quando uma concessionária de rodovias assumiu o trecho, foi determinada a proibição do comércio. "Tive de buscar alternativas. Atualmente só existem 12 anos em que as pessoas conseguem emprego: dos 18 aos 30. Antes disso você está muito novo; depois, está velho demais", expôs.
Para o vendedor de melancias André Custódio de Oliveira, de 18 anos, nem quem está nessa faixa de idade consegue emprego. Ele está na atividade há sete meses. "Como ambulante, meu chefe me paga uma diária de R$ 60 e uma marmita. Está difícil conseguir emprego. Foi a única coisa que consegui", relata. Ele trabalha perto do Residencial Vivendas do Arvoredo (zona sul), das 9 às 17 horas.
Outro ambulante que afirma estar regularizado é Nilson da Silva, de 50 anos, que vende morangos na esquina das ruas Bahia e Amapá, na área central. Seu ponto anterior ficava na Avenida Rio Branco, mas a implantação da faixa exclusiva de ônibus o obrigou a mudar. Na Rio Branco, ele já chegou a vender 100 caixas por dia, mas hoje a média é de 20. "O ideal seria vender umas 70 caixas por dia", calcula.


