Curitiba - A defesa de Celina e Beatriz Abagge, rés no caso da morte do menino Evandro Ramos Caetano em um suposto ritual de magia negra em 1992, em Guaratura, litoral do Estado, denunciou ontem que teria sido montado um esquema para acusá-las de envolvimento no desaparecimento de uma outra criança, o de Leandro Bossi. As duas vão a novo julgamento no dia 17 de novembro, no Tribunal do Júri de Curitiba.
Celina e Beatriz, que são mãe e filha, foram procuradas no início da tarde de ontem pela estofadora Ana Lúcia Soares Colere, 38 anos, mulher de Vicente de Paula Ferreira, condenado a 18 anos e oito meses de prisão no caso da morte do menino Evandro. Vicente contou para ela que, na última quinta-feira, homens que se identificaram como policiais federais o teriam retirado da Casa de Custódia de Curitiba, onde está preso, e levado até uma delegacia da Polícia Civil no centro da cidade.
Lá, Vicente teria conversado com um homem, identificado como Rogério, que se dizia delegado. O suposto delegado teria oferecido a ele a delação premiada sistema no qual o réu colaborador recebe benefícios e a mudança de identidade caso assinasse um documento incriminando Celina e Beatriz pelo desaparecimento do menino Leandro Bossi, há 13 anos, também em Guaratuba. O documento também responsabilizaria as duas em um esquema de envio de crianças para fora do País. Vicente teria se negado a assinar e o suposto delegado deu um prazo de duas semanas para ele pensar melhor.
Um dos cinco advogados de defesa das Abagge presentes à entrevista na tarde de ontem, Osmann de Oliveira, disse que vai enviar hoje uma representação para a Secretaria de Segurança e para a Vara de Execuções Penais (VEP), para esclarecer as circunstâncias da saída de Vicente do presídio. ''Para qualquer preso ser retirado de uma penitenciária precisa de autorização judicial. Isso é inaceitável.'', disse.
Para outro advogado, Haroldo César Náter, o objetivo do suposto esquema seria ''criar um fato novo, danoso à Celina e Beatriz'' às vesperas de um novo júri. As duas foram absolvidas em julgamento ocorrido no fórum de São José dos Pinhais, em 1998, pois os jurados entenderam que o corpo não seria de Evandro. O Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná, no entanto, anulou o julgamento, considerando que havia prova científica de que o corpo era do garoto e que os jurados não poderiam desconsiderar tal prova.
As Abagge entendem que a suposta tentativa de ligação das duas com o caso Bossi seja para prejudicá-las no julgamento. ''Nós estamos com medo e ficamos indignadas. Estamos cansadas de ser acusadas dessa maneira'', questionou Beatriz. ''Na época do desaparecimento do Leandro Bossi nós nem estávamos em Guaratuba'', disse Celina.
A assessoria da Secretaria de Segurança informou que não vai se pronunciar até ser notificada mas que já começou a investigar o caso.

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