Santa Isabel do Ivaí - Os moradores de Santa Isabel do Ivaí (92 km de Paranavaí) estão sendo obrigados a conviver nos últimos meses com sentimentos de dor, medo, angústia e revolta. A população atingida pelo maior surto de toxoplasmose do mundo, desde dezembro do ano passado, se sente ainda abandonada, desprotegida e mal-informada sobre a doença. Os moradores reclamam da falta de programas específicos para garantir qualidade no atendimento pelo sistema público de saúde.
Desde que a cidade foi atingida pelo surto, o principal assunto da comunidade é em torno do que eles denominam de ‘‘doença do gato’’. São, na maioria, pessoas humildes que nunca tinham sequer soletrado a palavra toxoplasmose.
Um dos principais motivos de indignação dos moradores está no fato de que mesmo diante de um problema de saúde pública, o reservatório de onde saiu a água contaminada com o protozoário causador da toxoplasmose continua servindo a população da cidade. Na caixa d’água vivia uma ninhada de gatos contaminados com a doença. O animal é um dos intermediários da doença entre o meio ambiente e o homem.
Para a professora Marlene Jacomel, a população não viu ações políticas mais efetivas desde o início do surto. ‘‘O município deveria ter decretado estado de calamidade pública para garantir rapidez em situações como da construção de um novo reservatório porque a água do município é de boa qualidade mas o sistema de distribuição é precário’’, explica Marlene. A professora não foi atingida pela doença mas está na luta pela formação de uma associação das vítimas da toxoplasmose. ‘‘Não é fácil juntar toda a papelada necessária, mas não vamos desistir’’, afirma.
O mecanógrafo Laudelino Pereira, que está com a visão dos dois olhos prejudicada por causa da toxoplasmose, diz que o protozoário acabou atingindo também a cidadania dos moradores de Santa Isabel do Ivaí. ‘‘A cidade está desesperada e diante muitas vezes da omissão’’, afirma Pereira. Ele conta que por causa do trabalho viaja constantemente pela região, inclusive para o Mato Grosso, e sente preconceito pelo fato de ser de Santa Isabel do Ivaí. ‘‘As pessoas têm medo da nossa cidade porque acham que tudo aqui está contaminado’’, diz Pereira.
Não é difícil perceber a desinformação entre os próprios moradores do pequeno município. Eles vivem em dois extremos. Ao mesmo tempo em que chamam a atenção da comunidade científica por causa do surto, não conseguem discernir sobre as reais consequências da doença. O tratorista Jucenil Trindade dos Santos é um entre vários exemplos que a Folha encontrou na cidade. Santos diz que teve os sintomas – semelhantes ao de uma forte gripe – mas não procurou o posto de saúde da cidade. ‘‘Vou levando a minha vida, nunca soube disso mesmo’’, afirma o tratorista. Para piorar a situação, Santos reclama de problemas na visão. ‘‘Parece que estou sempre com um cisco nos olhos’’, diz. A descrição do tratorista é justamente um dos sintomas de lesões provocados pela doença.
Exames realizados no município por especialistas constataram que pelo menos 15% entre as vítimas da toxoplasmose apresentam lesões nos olhos. A falta de tratamento pode levar à cegueira total. Números divulgados pelo município revelam que 450 pessoas tiveram exames positivos da toxoplasmose. A doença já provocou um aborto. Três mulheres grávidas estão com a doença e seis bebês nascidos com a toxoplasmose apresentam sequelas na visão. Um dos bebês está internado há mais de 40 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário de Londrina.

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