Aluna de um curso de formação de condutores em Ibiporã, a pacoteira Sônia Regina de Souza, 26 anos, não sabia que o termo ''condutor'' é sinônimo de motorista. Na mesma cidade, o repositor Marcos Aparecido Surman, 23, dirige com muita habilidade, mas enfrentou dificuldades para tirar a carteira de habilitação por não conseguir se fazer entender no exame psicotécnico. Praticando para se habilitar na condução de automóveis, a auxiliar de produção Gislaine Pereira da Silva, 22, não conhecia a maioria dos termos constantes do manual do curso de formação.
Em comum, os três moradores de Ibiporã têm o fato de serem surdos. Com capacidade para dirigir, eles tiveram que superar obstáculos de comunicação para conseguirem obter o direito de conduzir carros e motos. O caminho foi facilitado pela sensibilidade dos proprietários de uma auto-escola do município vizinho a Londrina que, para atender à demanda de surdos interessados em se habilitar, colocaram uma intérprete de libras (linguagem dos sinais) para ''traduzir'' as aulas teóricas.
''Habilitamos o Marcos, que foi nosso primeiro aluno surdo, e a partir daí começaram a aparecer outros interessados'', explicou a proprietária e diretora de ensino da auto-escola Bella Cidade, Neusa Maria Armelin. A escola já habilitou seis surdos desde 2006 e, atualmente, possui cinco alunos em fase de aprendizagem. ''Como o vocabulário deles é reduzido, aquilo que os ouvintes aprendem em 30 aulas eles levam até 90 aulas para compreender. Mas o valor cobrado é o mesmo para todo mundo'', disse.
A intérprete das aulas é Ivete Pereira Semprebom, coordenadora geral da Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Ibiporã (Apasi) e diretora do Centro de Atendimento Especializado na Área de Surdez no município. Cunhada de Neusa, foi ela quem sugeriu aos proprietários a introdução do atendimento aos surdos. Os resultados foram imediatos no índice de aprovações.
''Depois que o Detran autorizou a presença do intérprete nos exames, não tivemos mais reprovações'', afirmou. Segundo Ivete, as aulas são cheias de referências visuais, com utilização de transparências e demonstrações práticas das situações em carrinhos de brinquedos. O desafio é inserir os termos técnicos no vocabulário de cada aluno.
Graças à experiência adquirida como intérprete das aulas, ela está finalizando um dicionário de legislação para surdos. ''Quem sabe a gente não consegue publicar pela auto-escola?'', planeja.
a dificuldade maior nas aulas teóricas é inversamente proporcional à facilidade de aprendizagem nas aulas práticas. ''Os surdos tem o campo visual muito desenvolvido. Como não ouvem, o segredo é ficarem atentos aos retrovisores'', ensinou.
O instrutor prático Edgar Teodoro Rezende, que já ensinou seis surdos a dirigir, concorda com Ivete. Sem qualquer contato anterior com a Libras, ele explicou que antes das aulas combina alguns sinais com os candidatos a motorista, referentes a ações como acelerar ou parar, por exemplo. ''A capacidade de percepção deles é excepcional. Só é preciso ensinar uma vez'', afirmou ele, que atualmente até arrisca algumas conversas mais aprofundadas na linguagem dos sinais.

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