O deficiente auditivo Alexandre de Oliveira Pontes, 20 anos, acusado de tentativa de roubo, conquistou liberdade provisória no final da tarde de ontem, depois de passar 13 dias no 2º Distrito Policial (DP) de Londrina. O delegado-chefe da 10 Subdivisão Policial (SDP), Sérgio Luiz Barroso, sustentou que a ação da polícia foi correta e que vários indícios apontam que o rapaz pode mesmo ter cometido o crime.
Pontes, que é surdo e mudo, foi preso em flagrante na tarde do dia 21 de fevereiro, suspeito de ter tentado assaltar uma loja de conveniência localizada dentro de um posto de combustíveis, na Avenida Duque de Caxias (Área Central). Os irmãos do jovem defendem que tudo não passou de um mal-entendido, favorecido por sua dificuldade de comunicação. Já as testemunhas do suposto crime se contradizem em seus depoimentos.
De acordo com Barroso, o comerciante Eliel Campregher Martins relatou à polícia que Pontes pegou um suco na loja e, ao chegar no caixa, levantou a camiseta simulando estar armado com um objeto preto na cintura. Com a mão direita, fez um suposto sinal pedindo dinheiro, o que teria levado a atendente Sônia Maria Malassisse a gritar. O rapaz então se retirou ''sorrateiramente'', segundo o comerciante, que diz tê-lo seguido junto com um segurança, enquanto a polícia era acionada.
''Eles ficaram observando o rapaz, o viram entrar num bar e depois num ônibus. Durante esse trajeto, ele teria novamente levantado a camisa para mostrar o objeto, gesto que repetiu diante dos policiais'', afirmou o delegado. Pontes foi detido dentro do coletivo da linha Jardim Acapulco, e nenhuma arma foi encontrada com ele. O objeto preto seria uma carteira.
Já a versão dada pela funcionária é que Pontes comprou um achocolatado e pagou pelo mesmo. Depois que deixou a loja, um cliente disse ter visto um volume por baixo de sua camisa e comentou que ele ''quase'' assaltou o estabelecimento. Diante disso é que o proprietário teria acionado a polícia.
De acordo com a polícia, o depoimento de Sônia foi prestado somente uma semana após a prisão, sob a alegação de que ela estaria em choque até então. ''Talvez pressionada pela família, ou com dó do rapaz, ela afirmou que pode ter havido um mal-entendido. Mas a polícia cumpriu sua obrigação, diante da denúncia feita pelas vítimas. Se houvesse alguma falha ou nulidade no ato da prisão, no mesmo dia a Justiça poderia ter relaxado. Entretanto, a promotora ofereceu denúncia contra o suspeito'', argumentou Barroso.
Um advogado do escritório que defende Pontes, que preferiu não ter o nome divulgado porque não é o titular no caso, esteve ontem no Forum Estadual para reforçar o pedido de liberdade provisória. Ele disse não acreditar que houve erro da polícia, que teria apenas cumprido seu papel, mas das pessoas que acusaram o rapaz sem provas.
Já o irmão do preso, Ivan, 23 anos, acredita que o caçula foi vítima de uma série de injustiças. ''Não havia qualquer motivo para ele ser preso, não houve crime nenhum. Pelo jeito a gente vai ter que andar só de terno por aí, para não ser confundido com ladrão'', desabafou. Ele, Pontes e um outro irmão trabalham como entregadores e moram sozinhos no Centro. Segundo Ivan, o rapaz não ouve nem escuta desde que nasceu, mas nunca havia passado constrangimento por causa disso. Pontes está cursando o 2º ano do Ensino Médio supletivo e não tem passagens pela polícia.
Pontes foi solto no final da tarde de ontem. A família esteve no local para recepcioná-lo. Com a ajuda do irmão Tiago, que entende a linguagem de sinais, Pontes voltou a afirmar que não entendeu o que aconteceu. Disse ainda que pagou pela mercadoria e depois foi abordado pela polícia.
O rapaz ainda declarou que machucou-se dentro da carceragem em confusão entre presos. Para Tiago, ''desde o pessoal do posto até a polícia'', houve despreparo total dos envolvidos no caso. A tia dele, Irene Ponstes, afirmou que só queria que o sobrinho pudesse voltar pra casa e descansar, para recuperar-se do trauma.
A liberdade provisória foi concedida pelo juiz Paulo César Roldão. A reportagem tentou contato com ele, mas não obteve sucesso. (Colaborou Fernando Rocha Faro)

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