Lucinéia Parra
Enviada a Itaguajé
O município de Itaguajé (110 quilômetros ao norte de Maringá), com 4,2 mil habitantes, comemora uma vitória na área de educação. Nos últimos dois anos, com a implantação do Posto Avançado de Educação do Ensino Supletivo à Distância, dezenas analfabetos e semi-analfabetos estão resgatando valores e se tornando independentes graças a oportunidade de aprender ler e escrever.
A aposentada Francisca Gomes de Farias, 80 anos, é um exemplo. Ex-analfabeta, ela conta que mal sabia escrever o nome e que só o fazia em época de eleição quando os candidatos a orientavam a ‘‘desenhar’’ o nome dela na hora de votar. Pernambucana, Francisca ou ‘‘Dona Dulce’’ – como é mais conhecida – aprendeu a escrever as primeiras palavras em 1996 através de um programa de alfabetização oferecido aos grupos da terceira idade pelo Serviço Social do Comércio (Sesc). Em 97, ela se matriculou no curso supletivo à distância, que começou a ser ministrado na Escola Municipal Fábio Dias da Silva.
Hoje, Dona Dulce assina o nome sem dificuldade e acompanha a leitura da Bíblia na igreja. ‘‘Estou muito grata porque tenho Deus no coração e o ensino supletivo que me ensina a ler e escrever’’, comemora. Dona Dulce já recebeu homenagens pelo esforço e dedicação aos estudos.
As donas de casa Ana Fiais da Silva, 51 anos, e Maria das Graças de Oliveira, 40, e a auxiliar de serviços gerais Alzira Carrascai, 41, também descobriram, através do ensino, uma nova motivação para viver. A exemplo da maioria dos moradores antigos de Itaguajé, elas abandonaram os estudos para ajudar os pais nas lavouras de cana-de-açúcar ou para se casar. Ficaram anos longe da escola, mas resolveram voltar a estudar após a visita da coordenadora do ensino supletivo da Escola Municipal Fábio Dias da Silva, a professora aposentada Maria José Ederli, 57.
Elas ressaltam que a leitura e a escrita trouxeram independência e o resgate da auto-estima, que também são conquistas comemoradas pela dona de casa Maria Lenira de Oliveira Martins, 41. Ela havia abandonado os estudos aos 18 anos para se casar. Na época tinha concluído apenas o primeiro ano do curso magistério. Ano passado, Maria Lenira voltou a estudar e terminou o segundo grau. Este ano, ainda insegura mas com uma vontade ‘‘enorme’’ de estudar, ela prestou vestibular para o curso de pedagogia, na Faculdade de Presidente Wenceslau (SP), a 115 quilômetros de Itaguajé. Entre 120 candidatos, ela passou em 39º lugar.
Atualmente Maria Lenira enfrenta uma rotina de vida totalmente diferente do passado. Em vez de ajudar o marido no açougue da família, ela passa pelo menos duas horas por dia entre livros e cadernos. À noite, e às vezes durante uma semana inteira, ela se muda para Presidente Wenceslau. ‘‘Estou investindo cerca de R$ 300,00 por mês entre a mensalidade da faculdade, pensão e material didático, mas está valendo a pena’’, afirma.
O casal de filhos e o marido são os grandes incentivadores de Maria Lenira. ‘‘Meu filho de 23 anos e a minha nora também decidiram concluir o segundo grau’’, diz. Hoje ela lamenta ter ficado tanto tempo sem estudar, mas já está cheia de planos para o futuro. ‘‘Quero fazer pós-graduação’’.Mulheres voltam aos bancos escolares, descobrem a independência e recuperam a auto-estima na pequena Itaguajé
Fotos Marcos NegriniRETOMADAMaioria dos alunos do supletivo à distância tinha abandonado os estudos na infânciaFrancisca Gomes de Farias: vida novaMaria Lenira cursa pedagogia em São Paulo

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