Superstição envolve capela mortuária
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quinta-feira, 03 de julho de 1997
Célia Baroni 
Londrina
Dorico da SilvaCostume ou crendice?Ontem, pela primeira vez, a capela mortuária de Lerrroville foi usada para um velório: falecido é um bóia-fria que não tem famíliaA capela mortuária do distrito de Lerroville (zona sul de Londrina) ficou ociosa durante quase dois anos. E a superstição é o provável motivo que levou a comunidade local a continuar optando por velar seus parentes em casa. Os boatos começaram antes, mas se intensificaram depois que a capela foi concluída, em novembro de 95. Diz a crendice que a primeira família que velasse seu parente na capela mortuária perderia outros sete parentes na sequência.
Entre os moradores bem humorados era comum fazer brincadeiras, sugerindo que a subprefeitura importasse um defunto para inaugurar a capela. O subprefeito Denilson do Nascimento admite a existência do boato, mas prefere atribuir a ociosidade da capela ao hábito de a população realizar os velórios nas próprias residências.
Isso é só falatório. Mesmo quando os velórios eram feitos no salão paroquial, somente as famílias mais carentes e da zona rural usavam o espaço, justifica Nascimento. O fato é que, desde a conclusão da capela, houve apenas quatro mortes entre as famílias do distrito e, por superstição ou costume, eles foram velados pelos familiares em suas casas.
Embora não acredite no peso da superstição para a comunidade, Nascimento confirmou que a capela foi usada pela primeira vez ontem. O bóia-fria Arcides Rodrigues da Silva, 55 anos, faleceu na madrugada de quinta-feira e foi velado pelos amigos na capela durante todo o dia. O sepultamento acontece hoje de manhã no cemitério do distrito. Detalhe: o bóia-fria não tem família.
Há seis meses ele foi acolhido pelo amigo Sebastião Alexandre Francisco, 56 anos, que também trabalha como bóia-fria e mora em Lerroville há 15 anos. Sebastião conta que resolveu ajudar Arcides quando ele adoeceu. Há cerca de um mês eu e minha família precisamos ir colher café e colocamos o Arcides em um asilo em Tamarana.
O bóia-fria também confirma que a população comenta muito sobre a superstição da capela. Mas não vai acontecer nada com a gente, porque só fizemos uma bondade. Ele diz que tem fé em Deus e a crendice é só uma besteira.


