A fala mansa e um encanto típico de avô nos aproxima de forma fácil do educador Celso Antunes, uma sumidade em assuntos de infância e cognição. E é com a mesma serenidade que ele afirma que o brincar estimula o desenvolvimento cerebral e adverte que, por isso, os pais têm o dever de garantir esse direito a seus filhos.
Ele esteve em Londrina à convite do Sistema Maxi de Ensino e concedeu entrevista exclusiva à FOLHA.
FOLHA DE LONDRINA - Hoje em dia o que significa brincar?
CELSO ANTUNES - O conceito de brincar mudou muito nas últimas décadas. A partir dos anos 1990, pesquisas começaram a identificar que a brincadeira poderia estimular o cérebro a desenvolver aptidões e competências, como por exemplo, ensinar a falar, escutar e ver. Falar não é a mesma coisa que dizer. Falar é um pensamento articulado, muito mais amplo do que só dizer palavras. Escutar é muito mais do que ouvir. Ver está muito além do enxergar.
Brinquedos eletrônicos ajudam ou atrapalham?
Quando pega um ''gameboy'', a criança está tomando em minutos decisões que não se tomava antes em um mês. Isso é positivo, mas também é muito perigoso. Não se pode permitir um uso de tal forma descontrolado que a criança se vicie e que roube tempo para ela correr, pular, nadar e conviver com outras crianças.
Muitas crianças têm agendas iguais as de executivos. Isso também atrapalha?
Quando colocamos para uma criança de hoje essa agenda, roubamos aquilo que caracteriza o lado mais significativo da infância. E estamos também prejudicando a criança com um amadurecimento precoce. Agenda precisa envolver lazer, o não fazer nada e até a oportunidade de dizer que de tal a tal hora é o momento de a criança fazer o que quiser, até dormir.
Crianças devem brincar sozinhas ou acompanhadas?
Um dos furtos mais violentos que se pode fazer à vida humana é roubar dela a sociabilidade. Há momentos para brincar sozinha, porém é muito importante a sociabilidade, aprender, brincar com outras crianças e superar desafios que computador nenhum propõe. (L.A.)

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