Quem vê Maurílio conversando pela rua, todo descontraído, não imagina que o silêncio, e os livros, são seus velhos companheiros. Atleta, o rapaz adora esportes e já praticou desde artes marciais a futebol e natação. Hoje em dia, caminhar é seu passatempo preferido e o destino é sempre o mesmo: a banca de jornais do Calçadão do Centro de Rolândia (Norte). Lá ele se perde em notícias de jornais e revistas por horas e é capaz de analisar a atual situação política brasileira como um expert.

Maurílio Pasquini Neto, 24 anos, sofre de Síndrome de Asperge, ''uma deficiência na qual o indivíduo tem diferentes habilidades extraordinárias e um intelecto ótimo, mas tem dificuldade de relacionamento'', como ele mesmo descreve. Mas a condição não o impede de viver uma vida normal: ele trabalha o dia todo como auxiliar de escritório num frigorífico e acaba de concluir o primeiro semestre do curso de Biblioteconomia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), para onde vai toda noite.

''Trabalho há dois anos na mesma empresa'', conta Maurílio, que gosta do curso que escolheu. ''Tentei três vestibulares para Sociologia, mas nunca passei por causa da redação escrita. No ano passado, fiz pedido para uma redação oral e passei.''

Valéria Cristina Pusch Pasquini, mãe de Maurílio, lembra que o filho aprendeu a ler sozinho, aos três anos de idade. ''Ele nunca teve infância, só livros'', aponta Valéria, comentando que o filho também aprendeu sozinho a falar inglês, alemão e espanhol.

Segundo a psicóloga Arlete Rodrigues Campaner, que acompanha o rapaz desde pequeno, ele foi diagnosticado depois de participar de um estudo de caso realizado por um grupo de professores da UEL, que ficaram intrigados com o fato de ele ter se alfabetizado sozinho. ''Ele apresentava comportamentos diferentes de um portador de deficiência mental e depois de consultar um neurologista foi diagnosticado com a síndrome.''

Maurílio estudou por quatro anos na Apae de Rolândia até ser transferido para o ensino regular, aos sete anos. ''Foi um período difícil porque ele era hiperativo e não tinha tantos medicamentos'', lembra a psicóloga, comentando que o jovem, apesar de ter interesses bem dirigidos, ainda precisa ser treinado para as habilidades da vida diária e toma medicamentos.

Para a mãe, Maurílio ''é um orgulho, um exemplo de superação''. Tanto que ela preferiu que o filho contasse a própria história. Mas ela também é um exemplo de positivismo, já que sempre lutou pelo filho, mesmo quando a vida lhe tirou o chão, como a morte do marido, há nove anos. ''Foi difícil, mas eu corri atrás da escola, do emprego dele e hoje estou feliz pelo meu filho'', diz Valéria, que tem mais uma filha, já casada.

Maurílio garante que sempre se relacionou bem com os professores, mas sofreu dificuldades com os colegas. ''Eles zombavam e eu ia para a biblioteca, mas superei isso e hoje me dou bem com todo mundo. Também estou me entrosando com o pessoal da faculdade.''

Com gosto apurado para música e cinema, o estudante prefere ler e assistir TV em casa a frequentar festas. Tem amigos, ''principalmente mulheres'', brinca, mas quer terminar os estudos e consolidar carreira antes de arranjar uma namorada, ''que não tenha só beleza física mas, principalmente, beleza interior''.

Conforme a gerente de recursos humanos do frigorífico onde Maurílio trabalha, Marinês de Paula Passarim, depois que ele entrou na empresa, a equipe do departamento pessoal ficou mais unida. ''É responsável e concentrado, trabalha com tranquilidade e tem um ótimo relacionamento com os colegas'', resume. (M.G.)

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