Limitação não entra no vocabulário do casal Claudia Sofia e Carlos Jorge. Ela é paulistana, ele carioca. Conheceram-se por meio de amigos em comum e durante anos corresponderam-se por carta. Ele era noivo, mas vivia brigando com a namorada. Os amigos aconselhavam o fim do namoro. E foi o que ele fez. Resolveu dedicar-se à amiga de São Paulo e no ano passado largou emprego e família no Rio de Janeiro para ir morar com Claudia na cidade da garoa.
Esta história não teria nada de especial não fosse o fato do casal ser surdocego. Claudia Sofia Indalécio Rodrigues Pereira, 37 anos, nasceu ouvinte, mas ficou surda aos seis anos de idade. Aos 19, sofreu de retinose pigmentar e perdeu a visão. Carlos Jorge Rodrigues, 46, nasceu surdo e em decorrência da Síndrome de Usher - uma doença degenerativa que afeta as células ligadas aos sentidos da visão e audição - começou a perder a visão aos 10 anos. Hoje ele enxerga apenas 25% com um dos olhos.
''Nos conhecemos em 1997, durante um encontro da Associação Brasileira de Surdocegos (Abrasc). Trocávamos cartas e nos falávamos sempre pelo telefone, ela em São Paulo e eu no Rio'', recorda Carlos, que trabalhou por 11 anos como digitador e era um dos funcionários da sede administrativa do Fluminense Esporte Clube. No início, lembra, o maior problema foi conseguir a aceitação das famílias. ''Eles se perguntavam como dois deficientes iriam viver sozinhos.''
Devagarzinho, com muito tato e jeito, descreve Carlos, os familiares aceitaram o namoro. No ano passado, casaram-se. Ele mudou-se para São Paulo e garante que levam uma vida absolutamente normal, ''como qualquer outro casal'', assegura.
Juntos, Claudia e Carlos carregam a bandeira dos surdocegos pelo Brasil. Ela dirigia a Abrasc há seis anos quando passou o cargo para o marido, hoje diretor geral da Associação, que completa oito anos na próxima segunda-feira. ''A maioria dos surdocegos vive isolada e o nosso trabalho é mostrar que somos capazes de ter uma vida independente e de qualidade. É tirá-los do isolamento e fazer com que eles saibam que existe um outro mundo.''
Eles próprios são exemplo de que limitação não existe quando se tem amor pela vida. Como estudou em escola de ouvinte, Claudia desenvolveu a fala. Quando descobriu-se cega, aprendeu a ler e escrever em braile, mas a linguagem que mais usa para comunicar-se com o mundo é o tadoma.
''Quando fiquei surda não entendia mais o que as pessoas falavam. Por necessidade e desespero, encostava a mão nos lábios da minha mãe para captar sua articulação labial'', conta. Hoje, é assim que ela se comunica, colocando as mãos nos lábios das pessoas. ''Sempre tive boa memória labial, é um dom que eu tenho.'' Ela mesma reconhece que é uma habilidade pessoal: ''É muito difícil e não é treinável.''
Já Carlos é o primeiro mergulhador surdocego do Brasil, segundo no mundo. Ele relembra o primeiro contato que teve com o mar, aos 18 anos. ''Vi um filme e decidi que queria saber o que acontece embaixo d'água. Daí um tio me levou no litoral de Búzios, onde eu mergulhei com snorkel pela primeira vez''. Em 1994 ele começou a aprender a mergulhar com máscara e tubo de oxigênio e em 1997 mergulhou pela primeira vez no mar.
''Gosto de pegar as coisas no fundo do mar, sentí-las e devolvê-las com cuidado no lugar certo. Tenho um carinho e um respeito profundo pelo mar'', declara Carlos. Já Claudia diz que só irá mergulhar depois de aprender a nadar. ''Por enquanto só tomo sol e nado de bóia'', brinca a moça, que recentemente saltou de pára-quedas num programa de tevê.

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