A dor de perder um ente querido é imensa, parece não ter fim. No caso dos pais que perdem seus filhos, invertendo a ordem natural das coisas, esse sentimento é levado ao extremo. No entanto, é nesse momento que muitas pessoas descobrem lições valiosas, vencendo o sofrimento através da fé, solidariedade e do amor ao próximo.
José Carlos da Silva, o Zequinha, é pai de Raphael Bezerra da Silva, morto aos 20 anos, em 2004, numa ação policial desastrosa. Ele conta que o começo foi muito duro, houve muita revolta. ''Ele foi baleado no dia do aniversário da irmã e faleceu no dia 26 de dezembro. As festas perderam a graça e depois disso não se comemora mais nada''. O fato da família ser muito religiosa ajudou. ''Na missa de sétimo dia, o padre disse que Jesus também era jovem e também foi assassinado, isso me confortou um pouco'', lembra.
Zequinha diz que começou a frequentar a igreja, a ler a Bíblia. O conforto dos amigos foi muito importante também. Segundo ele, outro fator importante foi quando a justiça começou a acontecer, com o indiciamento dos policiais. Ele conta que não gosta de passar perto do Hospital Universitário, onde o rapaz ficou internado por 41 dias, nem pelo cemitério e também se mudou da antiga casa. Para se lembrar do filho ele guarda as roupas que Raphael mais gostava e um par de tênis.
Luis Carlos Rossi ainda está no auge da dor. Ele é o pai de Amanda Rossi, a universitária de 22 encontrada morta no campus da Unopar, no mês passado. O fato de não se saber o autor e o motivo do crime faz com que ele ainda não tenha vivenciado esse luto. ''No momento eu quero saber quem fez, porquê fez'', diz. ''Como cristão, eu sei que não vou me vingar, mas às vezes tenho muita raiva de quem matou minha filha; tenho vontade de fazer justiça''.
Rossi fala com muito carinho de Amanda e se emociona. ''Estou arrebentado por dentro, mas tenho que ser forte por minha esposa e minha outra filha''.
O tempo tem sido um grande aliado de Helaine Cristina Herrero. Ela perdeu a filha de 8 anos, Flávia Cristina, em um acidente doméstico, em 1996. Desde então, ela vivenciou toda a dor, deixou fluir as emoções. Só depois racionalizou. ''Como mãe, eu queria entender o porquê aquilo tinha acontecido. Você acha que não vai conseguir viver o outro dia'', conta. Nessa época, conheceu o espiritismo e recebeu muito conforto. ''Quem tem o lado espiritual mais desenvolvido aceita mais facilmente. Existe o tempo de sofrer e depois se aceita''.
O trabalho foi uma ponte para recuperar a sanidade. Percebendo e cuidando da dor alheia, Helaine começou, devagarzinho, a se esquecer da própria dor. Três meses depois da morte da filha ela criou a Associação Flávia Cristina, que oferece tratamento especializado a crianças com deficiência física e mental. Com isso, ela diz que arrumou um jeito de viver o nome da filha todos os dias pois tinha medo de que ele fosse esquecido.
Outra forma de lidar com a dor é encarando-a de frente, esmiuçando todos os seus ângulos e detalhes. Helaine escreveu um livro em que conta sua relação com a filha, o acidente, o luto e a criação da entidade.
Quando a dor da perda atinge os filhos, além da saudade, a falta pode se traduzir em desestrutura emocional e familiar. Foi o que aconteceu com os filhos de Sueli Aparecida de Souza, morta por uma bala perdida numa pizzaria, enquanto jantava com a família, em abril deste ano. Ela deixou dois filhos, um de 18 e outro de 8 anos. Enio Castro, marido de Sueli, reconhece que ser o único responsável pelos filhos não deixou que ele se abatesse. ''Não teve como poupar os meninos porque tudo aconteceu na frente deles''. A família ainda mora na mesma casa, perto de onde tudo aconteceu, e Castro conta que sente muita a falta da esposa. ''O tempo se encarrega de tudo, mas disso não se encarrega.''

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