Ser deficiente visual não o incomoda tanto quanto a desconfiança de que, pela limitada visão, Sebastião José Narciso, 49 anos, não seja capaz de fazer alguma coisa. ''A diferença é que eu preciso dobrar minha força, meu conhecimento e falar grosso se precisar, para convencer sobre minha capacidade'', brinca com a própria realidade. Cego desde os 28 anos, vítima de um acidente de carro, ele é pai, sociólogo, escritor e contador de histórias. ''Antes eu era um bom vivant, não estava preocupado com as pessoas. Hoje sou mais solidário.''
Sua nova descoberta sobre valores e percepções da vida são pano de fundo das histórias que conta em escolas e universidades mensalmente. ''As crianças me ajudaram a resgatar minha auto-estima. Quando estou diante delas, elas não pensam se sou deficiente visual ou não. Elas viajam nas minhas histórias e mantêm um contato muito legal comigo.'' Segundo conta, desde que perdeu a visão, a pior fase foi a adaptação à nova realidade, pois não somente precisou aprender a conviver com suas outras habilidades, mas também com a dor de ser diferente. ''O nosso sistema exige sempre algo em troca. O que um cego poderia oferecer? Pensar nisso me doía muito.''
A sensação de invalidez tomou conta da vida de Narciso em alguns momentos. ''O deficiente, e aí eu não falo somente dos visuais, se sente muito improdutivo para a sociedade. Só que não é assim. A diferença verdadeira é que eu, como deficiente, tenho que ter algumas habilidades que uma pessoa que enxerga não tem, então eu pergunto: quem é limitado?'' Casado e pai de duas meninas de 13 e 10 anos, Narciso conta que muitas vezes ouviu lamentarem: ''mas você nunca viu suas filhas''. Sem qualquer constrangimento ele assegura: ''Lógico que já. Conheço cada uma delas como ninguém, afinal eu as peguei no colo quando nasceram e acompanho o crescimento delas, por que seria diferente?''
Para colocar ponto final em tantas inseguranças - ''Uma época me bateu um medo de como seria para minhas filhas ter um pai cego, mas hoje percebo que elas têm orgulho de mim'' - surgiu um tal de Tião Balalão, sujeito divertido, cheio de histórias a contar. ''É através da literatura, da contação de histórias que consigo mostrar uma visão de mundo. Falar com as pessoas sem a restrição de ser deficiente ou não.''
Tião apareceu com a missão de ensinar sobre superação, igualdade, inclusão. ''A criança é capaz de ativar sua imaginação e sonhar. As histórias então, contribuem para que elas reflitam sobre assuntos que serão importantes a elas, por isso gosto tanto deste trabalho que realizo''. Desde 2001, Narciso se dedica a escrever livros - já tem uma coleção de obras infantis editada com apoio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), da Prefeitura de Londrina - e a contar histórias. ''Vou onde me chamarem. O importante é que as pessoas possam e queiram ouvir as histórias do Tião Balalão.''
O trabalho tem crescido e conquistado espaço. Narciso é chamado em instituições públicas e particulares de Londrina e da região. Prova de que, conforme acredita, é preciso que o deficiente tenha vontade de trabalhar, aprender e estudar. ''Se cada um fizer isso, encarar a mudança, ele se insere na sociedade.'' Ex-presidente da Associação dos Deficientes Visuais de Londrina (Adevilon), ele explica que muitos colegas têm vergonha ou medo de se colocar diante de pessoas que enxergam. ''As pessoas não podem ter medo e nem vergonha. Entre as pessoas que enxergam existem diferenças tanto quanto entre os que não enxergam, então o que não dá - e isso acontece com muita gente - é cada um se esconder na sua diferença.''
Serviço - Para quem quiser conhecer o trabalho de Sebastião Narciso e chamá-lo para contar histórias, o telefone de contato é (43) 3341-6106 e o e-mail é [email protected]. O trabalho também está na Internet, em www.engenhodaimaginatiao.com.br.

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