Super-herói de barba e barriga
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 24 de dezembro de 2002
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
A roupa vermelha e a barba branca estão presentes em todos eles, mas os motivos que levam as pessoas a se tornarem ''Papai Noel'' são os mais variados. Por profissão, para ganhar um dinheirinho extra ou até por uma brincadeira, todos eles, no mês de dezembro, vestem o gorro vermelho e sentam na cadeira para atender as crianças. ''Papai Noel, quero outra boneca'', fala a menina enquanto se aproxima de Noel. É assim o dia inteiro, a fila não pára de crescer e todos querem a atenção do bom velhinho.
Anselmer Oliveira dos Anjos, 30 anos, tem uma empresa de eventos e trabalha o ano todo se caracterizando de personagens. Este ano ele está como o Noel em um shopping de Londrina e para vencer a batalha diária de 11 horas seguidas como Papai Noel, ele declara: ''Tem que ter paciência e esquecer que existe relógio e hora''. Cada criança que entra é uma conquista, ''como você chama? O que quer ganhar de Natal? O que quer ser quando crescer?'', pergunta entre as brincadeiras com os pequenos. As respostas são variadas e às vezes engraçadas, ''quero ser Papai Noel'', diz uma delas.
Situações difíceis também existem na rotina de Papai Noel. ''Às vezes a criança está com medo, chorando, e os pais querem fazer a foto de qualquer jeito e jogam a criança no colo da gente. Tem também marmanjos que fazem aposta e querem vir sentar no colo do Papai Noel, tem que ter bom senso e jogo de cintura'', destaca. Promessas também não faltam. ''Tem criança que chega com a mão cheia de chupeta dizendo que vai parar. Comecei a pendurá-las na árvore de Natal'', conta.
Os pedidos às vezes comovem. Anselmer dos Anjos lembra de uma senhora que chegou até ele pedindo ajuda porque seu filho tinha sofrido acidente, tinha duas crianças e estavam passando dificuldades. ''Ela falava como se eu realmente fosse Papai Noel'', disse. Alguns pedidos ele pôde realizar, ''fomos entregar uma cesta de Natal no Cinco Conjuntos e foi bem interessante''.
Alguns papais noéis vestem mesmo a camisa, ou o paletó vermelho. Em outro shopping, quando perguntado qual era o seu nome, o Noel de 65 anos insistia em responder: ''Papai Noel''. Só com muito custo é que sua identidade de janeiro a novembro foi revelada, Carlos Alberto Boselle. Ele é aposentado e conta que virou Papai Noel por brincadeira. ''Tinha um anúncio no jornal e minha filha recortou e me entregou. Eu disse de deboche que já tinha me inscrito para a seleção e ela duvidou. Fui até o shopping, me inscrevi e estou há sete anos trabalhando com isso. Hoje faz parte da minha vida'', assumi.
As histórias são as mais diversas e às vezes difíceis de lidar. ''Veio uma menina de três anos, que é de São Luis, no Maranhão, e me falou: 'Papai Noel, o senhor que é amigo do paizinho do céu, fala que eu estou triste com ele'. Na hora eu falei com ela que não podia pensar assim e ela me disse que tinha um motivo: 'ele foi ruim e levou meu pai de mim'. Eu disse que não era para ela ficar aborrecida porque o paizinho do céu só escolhia homens bons para perto dele e ela saiu com uma carinha melhor'', conta.
Para Boselle, o principal para exercer a função do velhinho de barba branca é ter amor no coração, ''Deveria ter um Papai Noel no coração de cada um. O mundo seria bem melhor'', aposta. Ele diz que nesses anos já viu muita promessa de criança se cumprir. ''Elas chegam contando que pararam de roer unha e chupar chupeta cumprindo o trato que tinham feito comigo no ano passado''.
José Newton Furtado, 36 anos, é segurança mas vira Papai Noel há cinco anos no mês de dezembro. ''Tiro férias nesta época para isso. Não dá para ficar parado porque a situação está difícil'', argumenta. Ele é o Noel de uma loja de departamentos no centro da cidade e adora a experiência. ''Você alegra as crianças'', justifica. Entre os presentes solicitados, estão bicicletas, videogames e carrinhos de controle remoto. ''Elas são exigentes'', comenta Furtado. Uma menina de seis anos conseguiu comover José Furtado, ''ela chegou e disse que tinha vindo só para me ver porque admirava muito o Papai Noel''.
Ele acrescenta que as crianças costumam assumir seus ''erros'' para o Papai Noel: ''Elas dizem que não obedeceram os pais direito e eu oriento que não podem responder os pais, que têm que obedecer''. O que mais incomoda na rotina para ele é a roupa, ''nessa época faz muito calor'', justifica. Mas a recompensa vem com sabor especial: ''através das crianças, o Papai Noel se torna um herói'', finaliza.


