Suíços trocam férias por trabalho pesado
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segunda-feira, 20 de julho de 1998
Lúcio Horta 
Trocar as férias nas belas montanhas do Estado de Ticino, na Suíça, pelo trabalho pesado num velho barracão comunitário de Guairacá, povoado do distrito de Paiquerê, distante 30 quilômetros de Londrina. Essa foi a opção que um grupo de sete missionários suíços - um padre, uma professora e cinco jovens - fez quando resolveu viajar ao Brasil. A idéia surgiu em conversas com duas irmãs brasileiras que moram na Suíça e que já conheciam as dificuldades do povoado paranaense.
O grupo desembarcou em São Paulo dia 7 de julho e viajou direto para o Norte do Paraná, onde deve ficar até o dia 26. De lá, passa por Foz do Iguaçu e dia 29 retorna para Suíça. Além das necessidades da comunidade local, nós buscamos trabalhar onde as pessoas já estão trabalhando, para poder colaborar e incentivar. E o importante, para nós, é também o contato com as pessoas, com a cultura desse povo, explica o padre Jean-Luc Farine, do grupo missionário da Diocese de Lugano e coordenador da viagem ao lado da professora Henrica Branca.
Padre Farine já esteve desenvolvendo o mesmo trabalho em lugares bem diferentes, como Índia e países do continente africano. Chegou a passar dois anos e meio morando numa comunidade da Colômbia. Ao Brasil, esta é a primeira visita. O povo aqui é muito gentil, acolhedor. Esse contato faz com que a gente acabe também mudando um pouco a nossa mentalidade, afirma.
Os missionários, juntamente com pessoas da própria comunidade, estão ajudando na reforma do barracão de madeira que há mais de 30 anos serve Guairacá - distante 18 quilômetros de Paiquerê. É lá onde são feitas as festas, encontros, reuniões comunitárias, cursos, entre outras atividades. Os anos, no entanto, castigaram o velho prédio, que já apresentava muitos problemas e ameaçava até a segurança da população. Com ajuda dos missionários, o barracão está recebendo um reforço de alvenaria e em breve vai estar totalmente reformulado.
Vim para cá porque queria conhecer o Brasil, as pessoas, a cultura, a paisagem... Enfim, um outro mundo. E a experiência tem sido muito boa, afirmou a estudante de Bioquímica Cleria Sasselli, de 20 anos. Ela observa que se viesse apenas para fazer turismo, não teria oportunidade de travar um contato tão próximo com a população brasileira como está acontecendo em Guairacá e também na região. Além do patrimônio, o grupo já conheceu sítios e fazendas próximas ao distrito, a reserva indígena do Apucaraninha e também planeja uma visita à cidade de Londrina.
Cleria Sasselli afirma que agora já pode dizer que conhece muito mais do Brasil do que o manjado trio café-carnaval-e-favela, tão falado na Europa. Sem contar o Ronaldo, lembra, citando o jogador da Seleção Brasileira de Futebol.
A mais nova do grupo, Lara Pasini, de 15 anos, diz que também resolveu aceitar o desafio de trabalhar na América do Sul para conhecer uma cultura diferente da que está acostumada. Não se arrependeu. A experiência tem sido muito boa. O Brasil é um País muito bonito e as pessoas gentis, garante. Alberto Vigizzi, 30 anos, que também integra o grupo, concorda com a colega. Poder dar um pouco mais de si mesmo e também aprender com as outras pessoas é importante, vale a pena, diz ele, que é funcionário dos Correios na Suíça.
Nadine Kipfer, 22 anos e estudante de Pedagogia, também estava animada com a viagem. É muito positivo, enriquecedor conhecer outra cultura e estar em contato com o povo, diz. Meus amigos na Suíça chegaram a ficar com inveja. Dione Grassi, de 23 anos, concorda. Para a estudante, no entanto, a experiência não é inédita: ela já esteve desenvolvendo trabalho missionário em Calcutá, na Índia, onde pôde ajudar pessoas doentes e crianças abandonadas. Foi uma experiência dura, mas também enriquecedora. Por isso quis fazer novamente, diz.
A irmã Aparecida Jardini, reponsável pela paróquia São José, de Paiquerê, destaca que o grupo que chegou ao Brasil custeou as próprias passagens e ainda ajudou na compra do material de construção para a reforma do barracão comunitário. Além das sete pessoas que estão hoje em Guairacá, outros dois suíços também estiveram no povoado, ajudando na reforma do barracão, mas voltaram para a Europa.


