Milton DóriaA pegadado bichoO rastro da suçuarana junto a uma ovelha devorada foi achado por Argemiro Nunes Messias um dia após a matança na Fazenda Vale do Sol, a cerca de 400 metros do aprisco. Os ataques da onça-parda são comuns na região A pegada de uma Suçuarana (onça-parda) a cerca de 400 metros do aprisco, reforçou a suspeita que um felino (ou mais de um) possa ser o autor da carnificina da noite do dia 5 na Fazenda Vale do Sol em Ortigueira. Naquela noite chuvosa foram mortas 66 ovelhas. Mais 14 tiveram que ser sacrificadas. E onze ovelhas desapareceram. Destas, duas foram encontradas num capãozinho de mato no fundo do aprisco. Uma terceira foi encontrada no dia seguinte à matança, devorada pela suçuarana. Ao lado desta carcaça foi encontrado o rastro do felino, marcado no terreno argiloso de uma cabeceira de água.
Na quinta-feira, o ataque ainda continuava fazendo vítimas. Mais uma ovelha morreu dos ferimentos e outra teve problemas no parto, perdeu a cria e estava morre-não-morre na sexta-feira. Na quarta-feira, o Hospital Veterinário da Universidade de Londrina divulgou laudo, apontando cães selvagens ou domésticos como autores da chacina, após exames realizados em três ovelhas feridas. Segundo o laudo, as mordidas no focinho indicavam ataques caninos.

Milton DóriaPalavra de especialistaSeo Argemiro mostra o espinhaço da ovelha devorada pela suçuarana. Ele aponta especialmente o corte das costeletas rente à espinha, outra característica, segundo ele, da presença da onçaSem a ‘impressão digital’ do matador ou matadores no aprisco da Fazenda Vale do Sol, fica difícil provar que a onça-parda é a autora. A investigação no dia seguinte à matança foi prejudicada, pois a chuva forte da noite do dia 5 de agosto apagou qualquer vestígio. A ‘impressão digital’ da suçuarana só foi encontrada no dia seguinte, e a 400 metros do local. E só foi fotografada uma semana depois. Mas principalmente os dois dedos posteriores da pata do felino ainda aparecem claramente. O fato coloca a suçuarana (Felis concolor), também chamada de puma, onça-parda, onça-vermelha e leão, como a suspeita número um. Ou número dois, caso o laudo da UEL seja considerado conclusivo.
A tese da morte por felino na matança da Fazenda Vale do Sol é compartilhada pela veterinária Marcia Soares Ferrari, da prefeitura de Ortigueira. Ela fez a necrópsia de um animal e, embora também estranhe o número de animais mortos e o ‘empilhamento’ num canto do aprisco, sua conclusão é de que pelos ferimentos, inclusive arranhaduras, foi coisa de felinos.
Em meio a tantas contradições sobre o caso, os ovinocultores lamentam que ‘‘ufólogos e setores da imprensa, gente que nunca viu uma ovelha’’, insistam com explicações sobrenaturais para os ataques. A prática que difunde a versão fantasiosa do ‘chupa-cabras’ está prejudicando, segundo eles, um ramo da atividade, principalmente a criação mista. Na verdade, segundo antigos criadores, os ataques de predadores de ovelhas sempre aconteceram, mas agora ganha destaque em função da estória do ‘chupa-cabras’.
Em Ortigueira há o caso de um criador que, após a morte de 27 de seus carneiros, desistiu da atividade. Mas há casos de reação. Dois criadores da região mataram onças suçuaranas, apesar do temor do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Na quinta-feira, um deles, que não se identifica por questões óbvias, disse que o máximo de carneiros seus mortos em um único ataque foram cinco, com apenas um comido de onça-parda. Ele diz não acreditar que onça fez o estrago na Vale do Sol. ‘‘É muito carneiro morto’’, afirma. Sua versão predileta é a difundida na TV. Ele cita o ‘Cidade Alerta’, programa sensacionalista produzido em São Paulo. Obviamente insistindo na fantasia do ‘chupa-cabras’.
O administrador da Fazenda Vale do Sol, Denilson de Assis, tem ficado irritado com duas coisas nos últimos dias. A insistência de repórteres ‘‘para que afirme que o chupa-cabras matou os carneiros’’ e com qualquer tipo de insinuação de que houve negligência no cuidado com o rebanho quase dizimado. Sem sair da rotina da fazenda, Denilson ainda tem paciência para dar explicações e se defender de qualquer insinuação. ‘‘Estava chovendo. Se os carneiros tivessem morrido no campo, como é que a gente levaria tanto carneiro para o aprisco. E todos secos. E sem rastros de carretas?’’ Ele também confirma, taxativo: ‘‘Encontramos os carneiros mortos e feridos amontoados num canto do aprisco’’.
Argemiro Nunes Messias, 77 anos vividos ali em Ortigueira, nos pés da Serra da Piquira, trabalha como peão na Fazenda Vale do Sol. Foi ele quem achou a pegada da suçuarana, junto à carcaça ‘‘ainda quente’’, no dia seguinte à matança. Seo Argemiro conta muitas histórias de onça, algumas ouvidas do seu pai, outras protagonizadas pelos dois. Do alto da sua experiência, ele não tem dúvidas sobre a presença da Suçuarana nas proximidades do aprisco da fazenda. Mas diz que não entra na sua cabeça uma onça fazer tal estrago lá dentro. Tampouco acredita em algo sobrenatural.
Como ninguém sai caçando onça ou outros bichos na região por causa do Ibama, o cachorro onceiro foi extinto, ‘‘pois não tem sentido ensinar o ofício para os animais’’. De forma que, para o seo Argemiro, a tendência é que o caso da morte das ovelhas permaneça um mistério, ‘‘mais um mistério para entrar para a História’’, diz ele.

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