Milton DóriaDeficiênciasNorma Santana Zakir: ‘Ainda não conseguimos combater a correria, a falta de tempo e a violência urbana’Dores de cabeça constantes; musculatura dolorida; dores de estômago; tontura; perda do apetite ou excesso de vontade de comer; desânimo e fadiga. Esses são apenas alguns dos sintomas da síndrome do desgaste geral do organismo: o stress. Ao contrário do que muitos acreditam, o problema não é ‘‘coisa da cabeça’’, nem ‘‘problema que só executivo pode ter’’. Estudos científicos comprovaram que o stress é um problema sério, com efeitos orgânicos e deve ser abordado e tratado nos primeiros sintomas.
As consequências de subestimar o processo variam desde o envelhecimento precoce e do aumento de infecções à incidência de doenças dos aparelhos digestivo e circulatório. Em casos mais agudos, o stress pode levar o indivíduo à morte, provocando, por exemplo, um enfarte.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o stress como uma ‘‘epidemia global’’. O problema atinge homens, mulheres e crianças. Embora não existam estatísticas, no Brasil, sobre o stress, um estudo da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Campinas, reforça a definição da OMS. Das 1.800 pessoas examinadas pelo estudo, 32% apresentavam sintomas de stress em nível suficiente para merecer atenção médica.
O stress é desencadeado toda vez que a pessoa se vê forçada a enfrentar uma situação que, de um modo ou de outro, a irrite, amedronte, excite ou confunda. Ou até mesmo que a faça muito feliz. Durante o processo, o organismo reage suspendendo momentaneamente algumas das principais funções vitais, dedicando toda energia disponível para manter as funções de defesa e permanecer em estado de alerta.
Afastado o ‘‘risco’’ que levou ao stress, o organismo volta ao ritmo normal, dando prioridade às funções vitais (respiração, digestão, circulação). Em pequenas doses e com uma frequência baixa, o stress funciona como uma arma de defesa do organimo. É um ‘‘incentivo orgânico’’ à adaptação e à solução dos problemas e conflitos do dia-a-dia, garantindo a sobrevivência do indivíduo. Mas, quando os conflitos são frequentes demais, há um desequilíbrio que faz com que o organismo não saiba mais quando deve desligar o alarme. Nessas circunstâncias, o corpo entra em estado de alerta permanente.
Daí em diante o corpo entra em um ‘‘ciclo vicioso’’. Para manter o estado de alerta, o organismo consome vitaminas, minerais e carboidratos indispensáveis para que o metabolismo garanta a defesa. Fragilizado, o corpo adoece mais facilmente e agrava o stress. ‘‘Todos já o experimentaram, mas poucos o compreendem ou reconhecem o impacto que pode ter sobre a pessoa’’, afirma a doutora em Psicologia Clínica e escritora Marilda Novaes Lipp, em um de seus livros sobre o tema.
Descoberto no início do século pelo pesquisador Hans Selye, o stress é, de forma resumida, o resultado do processo de adaptação da espécie humana à modernidade. Apesar do andar ereto, dos sapatos, do carro, do avião e da espaçonave, por dentro o ser humano continua o mesmo de milhões de anos atrás. Princípios básicos como a necessidade da vida em grupo e a preservação da espécie permanecem dentro do seu organismo, indeléveis.
‘‘Aí começam os conflitos, a necessidade de se adequar a um novo modo de vida e de garimpar satisfação dele’’, diz a psicóloga e docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Norma Santana Zakir. ‘‘Nosso computador interno ainda não conseguiu respostas universais para solucionar e combater a correria, a falta de tempo e a violência urbana.’’
Coordenadora do Programa de Controle de Estresse da UEL, a psicóloga explica que, no Brasil, a síndrome ainda é ‘‘novidade’’. Diz que, nos países de primeiro mundo, ele é visto e tratado como um problema de saúde desde a década de 90 e até os empresários se preocupam com a seu reflexo sobre a produção, investindo em trabalhos de controle do stress. ‘‘Aqui, a maioria das pessoas e até profissionais da área médica não absorveram o conceito. O stress ainda é encarado com preconceito.’’

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