A plantação de girassol parece um cobertor amarelo que envolve a terra roxa. Toma conta da paisagem, da topografia sinuosa. O espetáculo da natureza, franco e imenso está montado. O vento sacode a lavoura, impõe a ela um balé de muitos atos, incansável, sem aplausos. A platéia corre trecho, dentro de picapes enlameadas, de ônibus pinga-pinga, de ar-condicionado dentro de um sedan importado. O astro-rei é o canhão de luz, que não costuma abandonar neste fim de primavera de chuvas esparsas e muito sol seus obedientes atores. A imagem acima não tem nada a ver com os épicos em questão. Eles estarão se transformando em bom óleo em pouco tempo. O ator do monólogo, nosso herói da resistência, talvez tenha melhor sorte. Talvez um outsider maltrapilho com um saco de estopa nas costas e muita desesperança descubra a beleza à margem da estrada e tenha mais ânimo em prosseguir seu percurso errante. Talvez seja apenas uma flor no vaso da sala de uma mulher de caminhoneiro. Talvez conclua seu ciclo natural sem nunca ter passado por mãos humanas. (Lúcio Flávio Moura)

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