Curitiba Morador do Curitiba há 25 anos, o músico Maérlio Fernandes Barbosa, 52 anos, não passa incógnito nas ruas da cidade. Não só pela fisionomia, ou pelo chapéu branco que ostenta na cabeça. Quando abre a boca, Ceará (nome artístico) denuncia suas origens: o sotaque arrastado e o jeito gozador para contar histórias arranca fácil gargalhadas de quem está por perto. No Paraná, os nordestinos correspondem a pouco mais de 2% da população, cerca de 211,5 mil. Mas para a formação do Estado eles significam muito.
Eles contribuíram efetivamente para a construção dos pensamentos político e jurídico do Paraná, além da bagagem cultural que tornou aqui um lugar mais brasileiro. ''Hoje você encontra as festividades do forró, os sabores da gastronomia típica, a alegria, a expansividade, música e rituais de lá'', explica o sociólogo e docente da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Ricardo Costa Oliveira. ''Essa influência se fez numa mão dupla, porque eles também se adequaram ao clima frio, ao comportamento e a ética do trabalho mais desenvolvida dos paranaenses'', acrescenta.
A escassez de registros bibliográficos da participação dos nordestinos na formação do Paraná levou Ceará a se empenhar numa pesquisa que dê aos seus conterrâneos o lugar que lhe cabem na História. ''No pensamento construído todo nordestino é pobre e flagelado. É como se migrar constituísse sempre numa fatalidade. Às vezes é simplesmente procurar outros campos onde possa respirar, criar raízes e ser feliz'', desabafa Ceará, que diz ser visível a presença nordestina no Norte e no Litoral (principalmente em Paranaguá).
Além da pesquisa, que se tornará posteriormente um livro, ele pretende realizar um ensaio fotográfico dos nordestinos e suas realizações no Estado como a estrada de ferro da Graciosa, construída pelo engenheiro baiano Antônio Rebouças. ''A idéia é mostrar quem são, como e quando chegaram, os motivos que os trouxeram para esta região, como vivem, identificar focos de colônias e influências da culinária típica de lá. Enfim, qual a importância da migração nordestina para o Paraná'', informa Ceará, dono do espaço cultural Calamengau.
Para ele, os nordestinos vivem como uma população ''invísivel'' aos olhos oficiais e da maioria dos moradores. ''Não tenho a intenção de fazer um tratado sociológico ou antropológico. Pretendo contar a história pela ótica do cidadão nordestino. E também por ter percebido que esta região está mais para Brasil que para a distante Europa da qual se diz ser um pedaço'', defende ele.

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