Rede de computadores. Rede de televisão. Rede de pescar. Rede de trave de futebol. Rede de dormir, descansar, relaxar. Nada tão plural quanta esta palavra. No seu último significado, uma prova de resistência cultural e democracia. ''A rede é um produto indígena que sobreviveu à colonização. Hoje é utilizada em vários projetos de decoração'', afirma a arquiteta Juliana Meda.
O paraibano Marcos Antônio Ferreira Delfim, que há mais de doze anos vende redes nas esquinas e rotatórias de Londrina, comprova seu aspecto democrático: ''Todo tipo de pessoa compra rede. Do pobre ao rico. Ninguém que quer uma rede sai daqui sem''.
Este produto, classificado como ''móvel'' pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, é típico dos índios que habitavam as américas sulinas. Usavam para dormir e não andavam sem elas pelas matas. Os colonizadores as assumiram, quando chegaram à nossa terra. As mulheres substituíram os cipós, utilizados pelas índias, e começaram a tecer as redes em algodão. Os negros, recém-chegados da África, ainda estranhavam o produto, pois tinham costume de dormir no chão, mas acabaram por sucumbir e, tal qual os colonos, passaram a utilizá-las com frequência.
''A importância que a rede assume para nossa população colonial prende-se, de algum modo, à própria modalidade dessa população. Em contraste com a cama e mesmo com o simples catre de madeira, trastes sedentários por natureza, e que simbolizam o repouso e a reclusão doméstica, ela pertence tanto ao recesso do lar quanto ao tumulto da praça pública, à morada da vila, como ao sertão remoto e rude'', escreveu Holanda, na obra Caminhos e Fronteiras.
Na atualidade, a rede permanece com a mesma importância. ''Cada um usa de um jeito, mas todos usam. Aqui, no sul do país, a gente usa para descansar, relaxar, mas em projetos que faço no nordeste, por exemplo, tenho de prever pontos de redes nos quartos. Lá não é decoração, em algumas casas chegam a substituir as camas. O fato é que, em todos os projetos residenciais, as pessoas pedem redes'', conta Juliana. A arquiteta completa que modelos mais modernos, feitos de fibras de bananeiras, por exemplo, estão em alta. ''São confortáveis e bonitas. Se o projeto é mais chique, elas são boa opção''.
Marcos, o vendedor de redes, conta que, na sua terra natal, a Paraíba, estes ''móveis'' são realmente obrigatórios. ''A gente dorme, descansa, namora. Faz tudo na rede. Até para acalmar o neném, serve. Coloca e balança até dormir''. Mesmo há 15 anos no sul do país, confessa que ainda prefere a opção indígena. ''Tenho cama no meu quarto, mas ainda fujo para a minha rede''.
Os produtos que ele vende são variados, nos formatos e cores. Um deles parece um sofá suspenso. ''Este, desde que começou a vender, não parou. É um dos mais procurados. Os preços também variam, vão de R$ 30 a R$ 50. As vendas, ele conta, são boas, mas sobem entre os meses de setembro e dezembro. ''É que tem mais gente viajando e também quem vai entrar de férias''.
No balançar das redes, a prova da sobrevivência de uma idéia genuinamente brasileira. Elas já foram tema de livro etnográfico do folclorista Câmara Cascudo, que sobre elas escreveu: ''Familiarizados com os objetos vistos todos os dias, não os admiramos mais e nem sonhamos em pesquisar-lhes as origens''. Mas nem por isso, escrevemos nós, elas deixam de nos embalar, tal colo de mãe.

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