Ponta Grossa - Chefe de trem, chefe de estação, guarda-freios, foguista, carvoeiro. Os nomes soam antigos e designam atividades extintas há praticamente 30 anos, quando as locomotivas a diesel substituíram as marias-fumaças. Mas na memória dos que frequentam uma sala simples da galeria do tradicional edifício Princesa, no centro de Ponta Grossa, tudo isso soa com naturalidade.
A sala abriga a Associação dos Ferroviários (Asfer) e agrega só a velha-guarda da Rede Ferroviária Federal (RFFSA). Gente que viveu uma época que para rodar um trem precisava de pelo menos 11 pessoas. Quem escuta as histórias desfiadas de início timidamente depois em uma turbilhão de lembranças e vozes chega a duvidar das diabrites desses senhores no mínimo sexagenários.
Histórias como as contadas por seu Alcides Custódio, de 70 anos e muita vitalidade. Com 30 anos de serviço na Rede, ele começou na via permanente - as equipes de manutenção da linha férrea. ''Antigamente todo mundo começava por baixo, ou era isso (manutenção) ou carvoeiro'', diz. Carvoeiro, no caso, era o auxiliar do foguista, o responsável por alimentar a fornalha da locomotiva.
Desse serviço, seu Alcides passou a guarda-freios. A função, segundo ele, era ainda pior. No tempo das locomotivas a vapor, o sistema de freio tinha que ser acionado manualmente nos vagões. Manualmente e do alto deles, o que significa que os guarda-freios viajavam a maior parte do tempo do lado de fora do trem. ''Com chuva, era terrível, e no inverno, era aquela geada e a gente ali, era sofrido, tinha madrugada que a gente chegava a endurecer lá em cima'', relembra
Com um trabalho desses, as quedas dos trens não eram nada raras. Mas seu Alcides perdeu o trem apenas uma vez. ''Caí lá perto do prado (hipódromo de Ponta Grossa) e o trem foi-se embora, só notaram minha falta lá na frente, quando o maquinista precisou de freio'', diz.
Outro ''surfista de trem'', Ubiratan Alves diz que apesar dos sacrifícios, a profissão tinha lá suas compensações. Por exemplo, impressionar as mulheres com os pulos ágeis de um vagão para outro. ''Quando o trem chegava em Jaguariaíva a gente sempre fazia graça'', diz ele. Coincidentemente ou não, foi nessa cidade que ele errou o pulo e caiu entre os vagões. ''Levei sorte porque não caí nos trilhos, mas me acharam desmaiado'', diz.
Nessa época, as viagens eram mais longas. A velocidade das marias fumaças, pelo menos oficialmente, variava de 20 a 30 km/h. ''Mas como não tinha velocímetro para o chefe saber, o maquinista gritava com o foguista, mandava socar lenha, e andava a 40 km/h, 50km/h'', diz Alves.
Apesar das dificuldades, não há ex-ferroviário que não tenha orgulho da profissão. ''A gente sofria mas se divertia muito também'', diz seu Alcides.
No desfiar das aventuras desse grupo de ferroviários, histórias do arco da velha. Como da turma que parou a locomotiva perto de uma fazenda em Jaguariaíva para bailar um pouco. ''Foi uma hora de festa e um mês de gancho (suspensão)'', relembra o grupo.
Outras peripécias mais parecem lendas, mas eles juram que é verdade. Como a prática de carregar cabritos de fazendas na beira da linha, enganando os bichinhos com o milho transportado e prendendo-os dentro dos vagões. Também havia o roubo de vinho - ''antigamente, o vinho vinha em barrica de madeira do porto, então era só entrar embaixo do trem e furar o soalho e colocar um balde embaixo'' - e até assombração. A mais famosa delas aparecia na travessia do Rio dos Bugres, em Itararé, na divisa com São Paulo. ''Quando a gente passava nesse trecho, dos três guarda-freios aumentava um, era o corpo seco, todo mundo tinha medo de passar por lá'', contam.
Todos esses ex-ferroviários são de uma época que trabalhar na Rede era uma grande chance além de sinônimo de status. ''Veja bem, eu ganhava 50 mil réis na roça, quando entrei na Rede meu primeiro salário foi de 900 mil réis'', diz seu Alcides.
Hamilton Pereira Batista, de 71 anos, ou simplesmente HP Batista, também afirma que foi o salário que atraiu sua atenção. ''Era o tutu mesmo e olha quantas famílias a rede sustentou'', argumenta o ex-maquinista.
Não sem razão, a cidade que abriga um entroncamento de grande proporção, oficina de vagões e outras estruturas hoje desativadas, agregava milhares de trabalhadores. Os ferroviários foram os fundadores de dois clubes esportivos, um bairro e um time de futebol. Só de aposentados, a Asfer calcula que, décadas depois da fase de ouro da ferrovia, existam 1,5 mil apenas em Ponta Grossa. A título de comparação, A América Latina Logística (ALL) tem 3,7 mil funcionários nos três estados de atuação.

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